A normalista

Vira e mexe estou me lembrando de fatos acontecidos na minha juventude.

 

Naqueles anos em que a disciplina e a rotina faziam parte da minha vida e no corre-corre do dia a dia não dava tempo nem para tirar meia horinha de descanso; mal sentava no pátio já o sino tocava, para as tarefas cotidianas.

 

Tínhamos nossas tarefas diárias, seis meses em uma função, seis meses em outra.

 

Mas quando entardecia e o sino tocava para as vespertinas, dava uma dor no peito; talvez saudades da família, talvez incerteza quando ao futuro, mas olhava para a cruz e então as forças se renovavam.

 

Foi lá que eu adquiri uma carcaça de determinação e de fé e a certeza que com Deus tudo é possível, com Ele vencerei todas as dificuldades da minha vida, e a solidão é uma companheira inseparável; que mesmo no meio de muitas pessoas, eu me recolho e medito.

 

Mas hoje vou falar de Rosa; Rosa de Lima.

 

Eu estava nos meus afazeres e fui chamada para servir a sala de visita.

 

– “Benedita, leva um cafezinho para as visitas” (disse irmã Maria, a cozinheira).

 

E preparei a bandeja, toalha branquinha, quatro xícaras, algumas bolachas champanhe e lá vou, subo pelo elevador de visitas e quando chego na sala no primeiro andar, vejo uma jovem muito bonita, com malas de couro fino; as minhas eram de papelão.

 

Enxoval fino, bordados com esmero…

 

Saia de xadrez evazê, blusa de chiffon, cabelo tipo gatinho que era usado na época.

 

A Madre mestra das postulantes conversava baixinho com os pais, que ainda, em vão, tentavam fazer com que ela desistisse da ideia.

 

Filha única, com certeza devia ter muitos bens, mas não sei por que razão deixava o mundo para entrar na irmandade.

 

Devia ter uns 25 anos e logo já estava dando aula para os pequenos.

 

No mesmo ano foi para o noviciado em Santo Amaro e lá ficando o tempo de preparação, vestia hábito branco mas logo tomou os primeiros votos. Silenciosa, sorridente, nunca a vi de cara triste ou falar algo que ofendesse alguém. Por baixo da capinha um rosário que era desfiado constantemente.

 

Depois de certo tempo foi para a Itália, me contaram que havia ficado doente por causa do clima frio da Europa.

 

E ainda tenho nas minhas retinas tão fatigadas a imagem daquela jovem sentada embaixo dos pés de camélia, concentrada em um livro, talvez sonhando com o futuro…