Simpatias, crenças e incoerências no Ano Novo

Sou do tempo que nas festas natalinas, Ano Novo, Páscoa e outra data qualquer comemorativa importante, meu pai matava nos fundos do quintal uma galinha, ou frango, e até mesmo coelho ou um pato, com aquela coragem que ninguém tinha em casa e ninguém gostava de ver a cena. Ele saia da cozinha com uma faca reluzente e um avental e nós já sabíamos o que ia acontecer… Escolhia o frango, este até adivinhava, virava de lado, mas não tinha jeito, sua hora chegou… Prendia o animal entre as pernas e de longe e de soslaio víamos o sangue correr, enquanto a nossa mãe já fervia água para depenar a ave.
 
Com o tempo, principalmente após 1970, com o advento dos mercados e hiper mercados, tínhamos acesso a aves e animais em geral, congelados ou resfriados, no dia que queríamos. Muitos clientes relutavam em comprar, mas acabavam adquirindo. Hoje é pratica universal e compramos, comemos ou passamos fome… Mas lembro mesmo antes dos supermercados ou no mesmo tempo, no nosso bairro abriu algumas casas que matavam e limpavam frangos. Melhorou muito para nós, às vezes meu pai mandava buscar um frango, eu não conseguia adentrar o recinto, aquele cheiro insuportável me virava o estômago, ficava verde com aquele odor e o comerciante levava para mim na calçada. Até hoje o primeiro local que abriu no bairro foi no Jardim Brasília distrito de Jardim São Luiz, na Rua Cinco e depois na Av. Geraldo Fraga de Oliveira, na época ainda Rua “Hum”, mas o fedor era o mesmo… Esse tipo de comércio foi proibido, mas deve ter em algum lugar do fundão da cidade.
 
Entrando no assunto propriamente dito sobre superstições e crenças, ouço sempre nessa época de fim de ano comentários de vizinhas, amigos e hoje até em programas de televisão, programas de receitas onde a cozinheira ou algum entrevistado não aconselha comer aves no Ano Novo, pois as mesmas ciscam para trás e isso é azar, atraso de vida… Ora, se faz mal no Ano Novo, deve fazer mal o ano todo.
 
Ora, toda ave cisca para trás e todos os animais quadrúpedes também ciscam para trás, pois pela teoria do andar, nós os bípedes, humanos, andamos como qualquer animal quadrúpede e bípede pela ação e reação. Ou seja, para andarmos ciscamos para trás, para podemos ir para frente, pois ao ciscar ou empurrar a terra, globo terrestre, para trás, ele não indo, nós é que vamos para frente, portanto todos ciscamos (ou dê outro nome que quiser).
 
No caso de suínos e gados em geral quando estão no pasto eles ciscam para trás também, a procura de uma gramínea, assim como faz o cachorro, o gato, o cavalo e outros… Apesar que “acho” que não comemos essa carne, até quando não sei, ou sabemos, todas são vermelhas.
 
Muitos disseram que o correto também é comer peixe, ora, o peixe também cisca para trás para dar impulso ao seu nadar, com as barbatanas ou nadadeiras e assim como a água não vai para trás ele vai para frente, ação e reação.
 
Outra superstição ou crença na alimentação é o caso da lentilha do ano novo, que não pode faltar, traz sorte, mas tem aqueles que dizem que tem que comer descalço, de roupa branca e levantar os pés, se não tocar o chão dá mais sorte ainda, ufa!
 
Também tem a simpatia da fruta romã, além de consumir, tem que guardar sete sementes na carteira e sete na gaveta, arre! É falta do que fazer dessas pessoas, incoerência a olhos vistos, a única salvação é Cristo.
 
Enfim, deve ter algum produtor ou provocador que impõe isso na mídia e o povo, apesar de estarmos no século XXI, nesse caso ainda estamos na Idade Média.
 
No caso das roupas, com certeza, os donos da moda impõe as roupas brancas e ultimamente além da camisa, tem que ser a calça, cueca, calcinha e sapato… Parecemos médicos, enfermeiros ou umbandista por uma noite toda, ridículo!
 
Nos últimos anos, venho notando que os donos da moda, lançaram roupas para o ano novo com cores, por exemplo, a vestimenta amarela atrai dinheiro, a vestimenta vermelha atrai o amor, a vestimenta azul a sorte e amizade, a roxa a paixão… Não reparei se tem mais cores, está virando um horóscopo vestimental – neologismo? Quem usa essas cores o ano todo não tem sorte? Enfim, nos tornamos ridículos para não sermos ridículos, durma-se com essa situação, enfim, é a massificação, somos marionetes dos donos da moda.
 
E tudo isso é informado com a maior seriedade. Eu de teimoso uso preto para ser notado, aonde vou me olham como se fosse um ET. Estou esperando algum dono da moda lançar isso como vestimenta que trás a eternidade, assim posso pedir direitos autorais, pois registrei aqui no SPMC.
 
Na praia temos que pular sete ondinhas, e reverenciar Iemanjá, alguém está levando dinheiro com isso também e, no domingo, vamos a missa, nossa que confusão de credos, ah! Depois, da missa passamos na feira e compramos o vaso com sete ervas, pois achamos que a vizinha tem mal olhado, e na terça-feira vamos a uma igreja evangélica qualquer da moda, como se ali fosse outro Deus, nossa! E na sexta-feira vamos jogar búzios e quem sabe ver a numerologia. Loucura! Ora rezamos a Deus, ora ao diabo, estamos perdidos sem rumo, por isso Cristo disse: “Deus, perdoai-lhe, eles não sabem o que fazem”, isso me conforta pessoalmente.
 
Depois disso e de tantas mandingas, crenças, só falta irmos ao psicólogo ou psiquiatra.
 
Enfim, felicidades a todos, com ou sem superstição e de qualquer credo, mesmo porque o Brasil é um país laico, e essa massificação, essa diversidade, movimenta o mercado comercial, industrial, religioso e gera emprego e circula o dinheiro.
 
Só no juízo final saberemos quem está certo. Deus esteja com todos.