A nossa vida profissional marcada pelo vínculo empregatício é às vezes curiosa. Minha carreira profissional inclui 30 dias de trabalho em uma só empresa. Pode soar estranho, mas que não oferece outras opções. Eventualmente é só aquela oportunidade e pronto. É aceitar ou largar.
Pois assim aconteceu comigo, quando residia na Rua Bento Freitas, esquina com Rego de Freitas, próximas ao Largo do Arouche no centro de São Paulo como vocês sabem.
Morava em pensão de portugueses. O movimento de inquilinos era grande e a comida razoável, sopa de legumes em geral.
Para chegar ao meu local de trabalho, no bairro da Água Rasa, que se iniciava às 7 horas da manhã, eu precisava me levantar as cinco. Caminhava um percurso entre minha rua até o Parque Dom Pedro II de onde saia meu ônibus: Água Rasa para o bairro, uns 5 ou mais quilômetros. Era uma fábrica, por isso o horário industrial: as 7 quando a tocava a sirene. Na volta do trabalho, ao chegar em casa, precisa muitas vezes lavar minhas roupas e secá-las na janela do quarto e dormia logo cedo, por volta das 21 horas, alimentado pela sopa de verduras.
Precisava do descanso, pois logo cedo precisava levantar-me para ir para trabalho. Essa rotina foi pesando e influiu no resultado de meu desempenho e na ambientação no escritório da empresa, cujo tratamento era muito bom. Uma Encadernadora na área de pessoal, o dono dela trazia sorvetes à tarde e distribuía entre nós.
Quando estava para completar os meus 30 trinta dias de trabalho fiz meu anúncio ao dono da empresa que precisava rescindir meu contrato de trabalho. Ele estranhou muito e depois de muita conversa e firme decisão, ele compreendeu minha situação e assinou minha carteira sem necessidade de aviso prévio. Mais 30 dias desse jeito seria a tragédia.
Foi esse então talvez um recorde diminutivo de tempo de serviço. Meus 30 dias de duração de permanência na empresa, mas que fizeram parte de meus 40 suados anos de trabalhos antes da aposentadoria.
As lembranças de todo modo são sem mágoa, pelo contrário, tenho carinhosa recordação daquele homem fino gentil e compreensível dono da empresa de uns 100 funcionários e que tinha idade para ser meu pai. Aliás ele foi um. Conto esta historia para ilustrar acontecimentos do passado e que registro aqui nas historias do saopaulominhacidade que aprendi a apreciar gostar e respeitar. Para cumprir essa exigência e fidelidade aos fatos, minha carteira de trabalho surrada comprova esse tempo de serviço. Foram os 30 dias de trabalho mais penosos e tensos da minha vida, por causa das dificuldades naturais e por ter optado em morar só e em uma pensão longe de minha família e querer depender exclusivamente de minhas mãos, pés e cabeça.
Por isso o título é carimbado como 30 dias de contrato de trabalho.
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