No baile

Tentando conhecer um pouco do mundo, resolvemos sair para dançar. Sim, conhecer alguma coisa além de responsabilidades, estudo, trabalho e compromissos sem fim.

 

Tempos de caminhada. E como seria interessante o traçar novos roteiros da existência! Ensaios de liberdade, de perder o medo, de poder esquecer o relógio para simplesmente passear e nem se preocupar em dar satisfações.

 

O casamento, para mim, foi mágico. Libertador. Tempo de construir identidade. Aliás, fui tirar a segunda via do RG ainda ostentando os meus cabelos encaracolados pela permanente que fiz por ocasião do dia do casamento. Seguramente eu estava evoluindo, construindo, tendo voz.

 

Fomos dançar. Novidade para nós, tão habituados a forçosas economias e também reclusos na nossa miopia por coisas também importantes da vida. Colegas de faculdade do Nelson organizaram um baile no Clube Inglês. Fomos, simplesmente.

 

O sentimento de liberdade, de conquista, de extravasamento de emoções, de leveza me levaram a ressignificar a existência. Dançamos com ânimo contagiante a noite toda, não havendo espaço para arrego. Nunca havia me sentido tão orgulhosamente viva e presente no mundo. Comecei a sentir um gosto especial de bênção, a alegria mais profunda de estar abrindo espaços para o verdadeiro.

 

Às 4h30 da manhã resolvemos ir embora. Paramos em uma padaria na Rua Consolação e comemos um misto quente com guaraná Brahma, meu companheiro fiel para os melhores momentos. Foi a primeira vez que andei em São Paulo em plena madrugada. E percebi o quão interessante eram os rostos, o trabalho dos atendentes, o trânsito mais tranquilo, a atmosfera de um calor macio. Não tive medo. O regozijo era maior que qualquer eventual ameaça. Vi a minha São Paulo com um sentimento de maturidade e de inteireza como nunca. Percebi a cidade com olhar profundamente amigo, observando sua singularidade, seus detalhes pitorescos, a sua eterna beleza recheada de História com as suas sutilezas e infinitas possibilidades.

 

Voltamos para a nossa casa da Vila Sônia e caímos na cama, só acordando às 5h da tarde. A dor no corpo era lancinante e, ao mesmo tempo, prazerosa. Pela primeira vez entendi o que era estar doente de uma folia.

 

Compreendi o significado que muitos músicos dão às suas melodias. E também o porquê não se deve levar a vida tão a sério. Mas isso eu fui me esquecendo logo depois, no meio das dificuldades e pressa tão neurótica que a vida teima desbragadamente em nos apresentar.

 

Uma das poucas vezes que me senti perfeitamente incluída na maravilhosa alegria da juventude, com risos, abraços, samba no pé e com uma imensa vontade de ser, para sempre, dona de mim.