Caso das Novelas

O grande prazer da minha vida em tempos de infância ocorria quando recebia a visita de algum parente. Era exultante a minha felicidade nessas ocasiões. Haveria a boa conversa, algumas piadas diferentes, casos diversos, entrosamento, enfim. A nossa vida em São Paulo, no nosso saudoso e simpaticíssimo Cambuci, era carregada de sofrimento e perdas, além da inenarrável solidão.
 
Quando alguém anunciava sua chegada, era como se o sol nascesse para mim, sol de primavera com o seu vigor prometido, exalando cores e com perfume da vida que não se inibiria: antes, se faria esplêndida, vibrante, carregada de um mertiolate profundamente amoroso e oportuno para curar nossas feridas de alma.
 
Muito mais que uma festa esplêndida! Assim era a espera da chegada de algum tio, prima ou de uma família. Mas eu sabia que, quando fosse a partida, eu sofreria imensamente a perversidade da solidão. Era, pois, o tempo em que eu pensava com muita frequência em sair da minha São Paulo, porque, seguramente, muitas pessoas estariam marcando presença na minha vida, com intensidade e beleza.
 
A presença dos parentes em casa, mesmo que por poucos dias, daria espaço para brincadeiras, menos proibições. Quem sabe, eu não precisaria ir às aulas de catequese… E como era sofrível os tempos das aulas da pré-primeira comunhão! Uma lição de medo profundo, um ensaio exaustivo e seríssimo para não se ir para o inferno. A hora decisiva seria lá no purgatório: ou se iria para o céu ou para o inferno depois do julgamento. Difícil seria ir para o céu. Para tanto, a pessoa haveria de ser apenas pia, temente, obediente, recatada, passiva, sensata, verdadeira, benevolente, subserviente, laboriosa, compassiva, resignada, íntegra, além de ter que sofrer calada e nem pensar em rir alto. E se a moça não fosse virgem, o inferno seria garantido e por toda a eternidade e sem direito à apelação. Tempos sombrios aqueles, de negação da infância, da construção e consolidação do medo. Uma juventude a ser construída para a negação da vontade e a liberdade. Levei uma vida para fazer as pazes com a Igreja.
 
Então os parentes chegavam. Quantos abraços de boas-vindas! E podia ser parentes de Minas ou do Paraná, todos eram esperados com alegria.
 
Naqueles anos 60, com a transmissão televisiva ainda tão lenta para chegar aos diversos cantos do Brasil varonil, a curiosidade das tias era infinita ao chegar a São Paulo. Um capítulo da novela levava mais de duas semanas para chegar ao interior de outros Estados. Uma tia, lá das Alterosas, achava que a gente encontrava artistas na rua com frequência.
 
Lá vinham as perguntas para minha mãe:
– “Célia, você já viu o Henrique Martins? Não? Mas nem a Aracy Balabanian, o Juca de Oliveira, a Hebe Camargo? Ninguém?”
O sonho da tia era saber detalhes, voltar para a sua santa terrinha e poder contar à exaustão para as outras irmãs, filha e sobrinhas.
A pergunta recorrente: 
– “como está a novela aqui?”
– “Tá assim, é? Noooooossa! E o que aconteceu com aquele malvado? E a malvada?”
Lógico, os malvados da época estavam também a mil. O bonzinho sempre com jeito de babaca… Não, esse não despertava muita curiosidade, apenas compaixão.
 
Depois da janta, era a hora da novela. Todas as mulheres ficavam defronte à TV Phillips em pé, enfileiradas atrás do sofá. Em pé sim, porque, na época, o “must” para não criar barriga era ficar em pé depois do jantar. Logo depois veio a fase de, também após o jantar, ficar um tempo com os braços para cima. Era degradante ver a minha mãe e a minha avó com os braços esticados perto do meu malfadado piano, o mesmo onde eu tinha que tocar Bach e Beethoven sem imaginar “qual era a desses caras”… Isso em tempos de Jovem Guarda, em que eu adoraria tocar “Por favor… Pare agora! Senhor juiz, pare agora!”
 
Mas, no caso da novela, eu tinha uma vontade imensa de contar tudo ao contrário quando ia a Minas. Só para ver o que ia dar. Mas nunca fiz isso. Até porque o medo do pecado da mentira rondava o meu imaginário. E dá-lhe medo do inferno…