Os tapetes de Corpus Christi

O dia de Corpus Christi é um feriado da Igreja Católica e, lá no meu bairro, era comemorado em grande estilo. Além das missas na Igreja Nossa Senhora da Penha, havia também a procissão pelas ruas do bairro.

Em muitas cidades do Brasil essa festividade se tornou tradição e comemoram com apresentação de cenários belíssimos, pelas principais ruas, sensibilizando as pessoas. Um exemplo é a cidade de Ouro Preto, que recebe todos os anos milhares de turistas para celebrarem a festa religiosa.

Voltando ao meu tempo de criança, tudo acontecia quando ainda eu estava no antigo curso primário. As aulas mal começavam e já recebíamos orientações do professor de religião da escola, de quais e como armazenar determinados materiais que serviriam para a elaboração dos tapetes nas ruas do bairro da Penha de França, por ocasião da procissão de Corpus Christi.

Ainda bem que, lá em casa, havia um porão bem grande onde também armazenávamos as madeiras para a Festa Junina e, claro, todo material que nos era pedido. Lembro-me de alguns materiais como a serragem, o pó de café, as cascas de ovo, as tampinhas, purpurinas coloridas, sal e flores de papel crepom e o que não nos faltava era a responsabilidade em armazenar com cuidado todo material. Não só as crianças, mas os moradores do bairro também eram convidados para ajudar na confecção dos tapetes de rua.

Parte da Rua Antônio Lobo e da Rua Betari, entre outras, participavam do trajeto da famosa procissão de Corpus Christi. Um dia antes da festividade, as ruas eram interditadas para iniciarmos os trabalhos de construção e, desde cedo, baldeávamos todo material do porão de casa, que serviria para decorar os tapetes multicoloridos. Com muita calma e atenção, cumpríamos todas as orientações que nos eram dadas e, aos poucos, íamos compondo aquelas linhas, curvas e retas que davam formas as mais belas figuras religiosas. Na verdade, hoje, entendo que era um trabalho de arte e apreciado por todos.

Para o dia seguinte sobrava apenas o acabamento e a nossa torcida era grande para não chover e desmanchar tão lindos quadros. Lembro-me de que as pessoas que moravam nas ruas tomavam conta para que nenhum aventureiro tornasse nosso trabalho em vão e do respeito que os moradores tinham ao trabalho tão suado, ficavam ali horas admirando toda aquela “belezura”.

O ponto culminante deste dia era quando a procissão se aproximava e tomava conta daqueles belíssimos tapetes construídos de iniciativa voluntária, sem cobrança, mas feitos com muito amor e responsabilidade. Todos se emocionavam e, a cada tapete que a procissão adentrava, eu tinha a sensação de que os fiéis acreditavam que Cristo se fazia realmente presente naquele momento e por isso muitos choravam. Mediante a esta sensibilização eu sentia o quanto era importante o papel de cada um nesta celebração religiosa e um sentimento de que valeu a pena participar invadia a minha alma.

Naquela época, eu sabia da importância desta data religiosa, mas na verdade eu pensava e acreditava também que no mundo que nos foi destinado a habitar, Cristo nos mostraria sempre sua presença e de várias formas, lindas e simples, mas concretas e verdadeiras. A procissão de Corpus Christi era só uma delas.