Esta história é a continuação do texto postado neste site no dia 4 de outubro de 2013 sob o título "Ressentimento", onde relato as peripécias cômicas que o meu amigo de carteira Orlando, do 4º ano primário, apresentava durante todo o ano letivo.
Terminado o 4º ano primário, fui fazer o Ginasial e o Colegial (termos usados na época), no Centro da cidade. Perdi completamente o contato com o meu amigo Orlando. Aos 15 anos, comecei a jogar futebol no Tricolor da Vila Olímpia. Aos 16 passei, para o Sporting da Vila Nova Conceição e aos 17 ingressei no General Couto de Magalhães, também da Vila Nova Conceição. Nessa época, o campo do Couto Magalhães ficava entre a Avenida Santo Amaro (altura do nº 1200) e o final da Rua João Cachoeira, ladeado pela atual Rua Santa Justina.
Já no primeiro jogo no Couto Magalhães tive uma agradável surpresa. Com menos de 10 minutos de jogo, acabei fazendo o primeiro gol da partida e, quando os companheiros estavam me cumprimentando, ouço, vindo detrás do gol, a seguinte manifestação em voz alta: Valeu, Capuano! Fiquei surpreso, pois sempre fui conhecido e identificado, de modo geral e principalmente no futebol, pelo meu prenome: Roberto.
Quando olho na direção do gol, vejo atrás da rede o meu amigo Orlando, que não via há seis anos. Sempre alegre e divertido, fiquei sabendo que ele era entusiasta torcedor do clube. Durante dois anos, em todos os finais de semana nos encontrávamos no campo do Couto Magalhães; eu como jogador e ele como torcedor.
Aos 19 anos, com a intenção de tentar a carreira médica, matriculei-me em um cursinho preparatório para medicina (tinha aulas aos domingos) e abandonei o futebol. Após um ano de cursinho, prestei exame (sem êxito) na Escola Paulista de Medicina.
Nessa época, o estabelecimento comercial que meus pais possuíam na Avenida Santo Amaro (Papelaria Martim Francisco) estava em pleno desenvolvimento e necessitavam da minha ajuda, o que motivou a minha decisão em assumir de vez o controle do mesmo. A partir daí, passei a dedicar-me integralmente ao comércio e, desde que parei com o futebol, novamente não tive mais contato com o amigo Orlando.
Vários anos se passaram e, certo dia, ao sair da loja, vejo na calçada do outro lado da Avenida Santo Amaro uma pessoa do sexo masculino rastejando pelo chão, com as mãos e os joelhos substituindo a função dos pés. Fiquei impressionado com a cena. Ao me aproximar da pessoa, tive um choque emocional. Era o meu amigo Orlando. Que tristeza. Não tive coragem de indagá-lo sobre o ocorrido. Preferi procurar o Varinho, outro amigo de infância e famoso 4º zagueiro do time principal do Couto Magalhães, também amigo do Orlando.
Varinho conta que, com o falecimento dos pais, sem ter continuado os estudos, sem ter qualquer profissão qualificada e consequentemente sem emprego, Orlando acabou perambulando pela vida. Sensibilizados com a sua situação, alguns jogadores e dirigentes do clube passaram a assisti-lo com contribuições para manter seu hábito de fumar e a necessidade de alimentação. O clube cedeu ainda um canto da sede para pernoitar em um colchão de palha que havia no local. Sentindo-se inútil e com algum dinheiro que recebia para sua subsistência, começou a beber e em pouco tempo tornou-se um ébrio.
Certa vez, ao chegar ao seu local de pernoite, totalmente bêbado e fumando, senta no colchão e em razão do seu estado de embriaguez acaba deitando e dormindo com o cigarro aceso entre os dedos. A fagulha do cigarro penetra na palha do colchão provocando fatal incêndio. Sentindo a dor da queimadura, instintivamente encolhe totalmente as pernas o que, pelo tempo que levou até ser atendido, originou uma inevitável atrofia. Levado a um hospital, e depois de algum tempo, volta andando da maneira que o encontrei. Em razão da sua precária condição de higiene, Varinho, com outros amigos, por vezes chegaram a banhá-lo.
Menos de um ano depois do acidente, fiquei sabendo que aquele menino que conheci no 4º ano primário, sempre alegre e divertido, cômico, contador de piadas, gracejos, gozações e amigo veio a falecer como um indigente. Que pena!