A bronca da tia Laura

Tia Laura foi sempre uma pessoa cheia de energia, exigente e muito observadora, tinha um bom coração e era muito paciente com as pessoas, principalmente com a “sobrinhada”. Na década de 1950, em todas as casas havia sempre inúmeras crianças, a maior parte das famílias da época tinha no mínimo de quatro a cinco filhos. 
 
Meu tio, seu marido, morreu cedo, e assim ainda bem nova tia Laura passou a comandar sozinha o sustento de uma família de oito pessoas, o que não era fácil.
 
No ano de 1953, deixou o Piqueri na zona Oeste, onde vivia em casa de aluguel, mudando-se para a distante Guaianases, na antiga Central do Brasil. Coisa que dificultou muito as nossas costumeiras visitas e lá passou a viver pelo resto de sua vida. 
 
Tia Laura (que era verdadeiramente tia de minha mãe, já que era irmã de minha avó, sendo então, no caso, minha tia de segundo grau) era uma doceira de renome na região, como também uma ótima cozinheira, e foi graças a suas aulas de culinárias que a minha mãe tornou-se também uma cozinheira de mão cheia, que foram de muita valia para o seu autossustento, como também do meu e de minhas duas irmãs, depois que meu pai morreu. Em 1945.
 
Eu e minhas irmãs adorávamos visitar tia Laura, e poder passar muitas horas em sua casa, provando seus deliciosos quitutes e muitas guloseimas de sua produção e, é claro, adorávamos ajudá-la nessa tarefa.
 
Às vezes eu ia às compras com ela e procurava sempre da melhor forma ajudá-la nas tarefas, talvez até movido pela gula de usufruir ainda mais os seus deliciosos quitutes.
 
Um dia, resolvi acompanhá-la quando a mesma anunciou que iria fazer a feira livre, que era na época armada e montada na Rua Coronel Bento Bicudo, no centro do Piqueri.
 
Fui junto com ela em meu patinete, carregando comigo duas sacolas para serem usadas na volta com as compras. Tia Laura comprou tomates, verduras, frutas, café Jardim (eu que pedi, pois no mesmo vinham umas figurinhas), e de passagem ainda me pagou um pastel que naquele tempo já era a coisa mais gostosa de toda feira, e então a mesma dirigiu-se para a barraca dos pescados. 
 
Criteriosa e detalhista como sempre, tia Laura examinava cuidadosamente os peixes e, então, segurando uma pescada branca pelo rabinho, olhou o peixe de alto a baixo, verificou os seus olhos, a escama, aproximou seu rosto junto ao peixe, virou e revirou o peixe por todos os lados como que farejando o peixe, largou o peixe na bancada dizendo firme:
 
– Pelo amor de Deus esse peixe não está bom!
 
E o peixeiro gozador, como todo bom feirante, disse brincando e sorrindo para minha tia:
 
– Também freguesa, com um exame desses nem a senhora passava.
 
Coitado! Além de perder a freguesa, levou a maior bronca de toda sua vida de minha tia.