No tempo dos festivais de futebol na várzea

Para estes jogos comprávamos troféus a serem disputados e os times convidados para os festivais sentiam-se valorizados e, ao invés de cobrarem vantagem para virem nos visitar, pagavam uma cota especial para participarem do festival.
 
Nestas oportunidades os campos eram demarcados, coisa rara nos jogos normais. Colocavam-se redes novas e o campo era enfeitado com bandeiras. Fogos eram queimados a cada time que entrava no campo e a cada gol marcado. Tudo para abrilhantar a festa que atraia torcedores de todos os times, o que constituía um bom público consumidor, e neste dia a barraca de salgados e bebidas do clube anfitrião estourava a boca do balão e normalmente realizava o maior lucro do ano.
 
Finanças à parte, o dia de festival era uma grande festa e preocupava a vizinhança em função da quantidade de estranhos que circulavam pelo bairro, muitos deles completamente bêbados por serem bons clientes da barraca.
 
Eu recordo que minha mãe preparava uns salgadinhos especiais e lá ia eu com o tabuleiro vender na beira do campo, sempre com um olho no freguês, para ver se ele não fugia sem pagar a conta, e o outro no Zulu (presidente do Falcão do Morro), que não queria concorrência com sua barraca. Dava para ganhar um bom dinheiro naqueles domingos de festivais. 
 
Normalmente, o time anfitrião estreava seu fardamento novo nos festivais e neste dia era proibido perder o jogo, missão esta muito difícil, pois normalmente o jogo final do dia era um clássico e o adversário nesta ocasião sempre possuía muita qualidade.
 
Lá no Falcão do Morro, estes jogos sempre foram apitados pelo Bertão “Perna Rica", o apelido foi dado, pois em um desfile da Escola de Samba do Falcão, que na oportunidade ainda era apenas um cordão de Carnaval, o Bertão com a fantasia da escola passou um saquinho para angariar dinheiro para ajudar uma família da comunidade que havia perdido a casa, ali na Rua Tomazo Ferrara, quando da grande enchente de Itaquera. No final do desfile, o Cobrinha (diretor da escola de samba) pediu o saco com a coleta para o Bertão e notou que no saco havia pouco dinheiro, porém notou também que as pernas na calça da fantasia do Bertão estavam mais “bufantes” que o normal. Ele havia colocado quase todo o dinheiro coletado nas pernas das calças que naquele dia se tornaram as pernas mais ricas de Itaquera.
 
Pois bem, com o Bertão apitando, o Falcão nunca perdeu um jogo, ele roubava o tempo todo para o time adversário em pequenas faltas no meio do campo, laterais e tudo que podia inventar marcava contra o Falcão, desde que não acarretasse em perigo de gol. Brigava com os jogadores do Falcão e ameaçava de expulsão, dava vantagem em tudo para os times visitantes que ficavam satisfeitos com o juiz da casa que roubava a favor dos adversários. Todavia, sempre que a bola era levantada para a área do Falcão ele apitava com firmeza e entusiasmo o perigo de gol que, tendo em vista o empurra-empurra, não era questionado.
 
Se próximo ao final da partida o jogo estivesse empatado, ele dava o sinal para um dos atacantes da casa se atirar dentro da área e aí o apito fatal de penalidade máxima a favor do Falcão, inconteste. Hoje, ao ver o futebol profissional e a atuação de alguns árbitros eu me pergunto: será que este cara aprendeu com o “Perna Rica”?
 
Nos festivais, as partidas eram de tempo reduzido, normalmente trinta por trinta, e existiam regras para definir o ganhador em caso de empate. Primeiro critério: a quantidade de bolas na trave e, em segundo: a quantidade de escanteios conquistados e desta forma não seriam necessárias as prorrogações ou disputas em penalidades, para não atrasar a programação dos jogos do dia.
 
Certa vez fomos convidados para um festival de um time que estava inaugurando seu campo, que ficava perto do Cemitério do Carmo, na Vila Carmozina. Choveu sábado e domingo amanheceu chovendo muito. Não conseguimos o caminhão do Toninho Valvoline e fomos andando até o local do jogo, que não era tão longe, ficava a uns três quilômetros de nossa sede.
 
Nosso jogo seria o terceiro da rodada e, logo ao chegarmos, pude notar que o campo era uma praça de lama, pois a terraplanagem havia sido concluída na sexta-feira e, com toda a chuva do final de semana e mais duas partidas já roladas, somente daria para jogar se as chuteiras tivessem sapatas de trator. 
 
Não me lembro quem era o adversário, somente recordo que as camisas deles antes do jogo eram verdes e as nossas as tradicionais brancas e pretas. Aos cinco minutos de jogo todos usavam camisas de uma só cor, cor de barro.
 
Durante os 60 minutos de jogo nenhum time conseguiu dar um único chute a gol. A bola não rolava e os jogadores não andavam em “campo”, porém o clima estava animado fora de campo, uma multidão assistia à pelada, que parecia uma comédia de circo mais atraente para a plateia que muitos jogos em dia de sol.
 
Quando o juiz apitou o final do jogo, nem foi necessário contar as bolas na trave ou escanteios conquistados, pois os times empataram em todos os critérios em zero a zero.
 
O juiz chamou os capitães dos times para o meio do campo e nesta oportunidade eu era o capitão do nosso time, estufei o peito, coloquei a camisa embarrada para dentro do calção e fui para lá disputar o troféu na moedinha. Como de costume, e com a gentileza aprendida com minha mãe, dei ao capitão deles a oportunidade de escolher primeiro e ele escolheu cara. O juiz jogou a moeda para o alto e não conseguiu apará-la ao descer. A moeda caiu na lama e sumiu. Abaixei em um gesto rápido com a cara perto do barro e desferi um grito fatal: “ganhamos”. Ao mesmo tempo, saí em disparada para a mesa na beira do campo onde estava o troféu e o peguei, e corremos para a torcida em festa.
 
Nunca este resultado fora contestado, não sei se deu cara ou coroa, nem mesmo se o juiz encontrou a moeda, porém, para mim, este fato ficou sendo o sinônimo de Ganhar no Grito – “Ganhamos”.