Recordação

Zona oeste da capital, bairro das Perdizes. São sete décadas passadas. Vou escrever o que eventualmente sucedeu em minhas recordações durante esse tempo. Inicialmente o ano era o de 1942. Há uma pequena névoa confundindo o pensamento, porque, ainda muito criança, é difícil definir com certa exatidão alguns acontecimentos que precederam o início da minha infância, porém, existe no fundo de nosso inconsciente algumas passagens que, apesar de quase apagadas, trazem ainda à tona os fatos que marcaram o início daquelas primeiras e das melhores fases da vida. Para ser exato, lembro-me de minha saudosa mãe, que possuía um piano de cor azul encostado no canto da sala de visitas. Confesso ter ouvido ela tocar algumas vezes uma música, porém, não sei exatamente qual era aquela pequena canção ou um poema composto por alguns versos. Era uma música suave, uma tocata de algum compositor famoso, porque as pessoas daquela casa ficavam em volta do piano ouvindo com interesse a melodia que saia das teclas do piano.

O senhor Domingos, um italiano vindo de Salerno, nosso vizinho de casa, possuía uma mercearia de secos e molhados no começo da Rua Turiassu, quase esquina com a Rua Cardoso de Almeida, onde minha família se abastecia dos principais gêneros alimentícios. Minha tia do lado materno, irmã de minha mãe, todos eles oriundos de Vazzanno, na Calábria, eram a referência de minhas recordações, porque o tio casado com ela, nascido em Pizo de Calábria na ponta da bota, era uma figura extremamente exótica e excêntrica. Sem saber porque, encontrei-me em frente de sua farmácia e pude observar, sem entender ainda muito bem, aquela sua paixão pelo jogo do bicho, que naquela época corria solto pela cidade toda.

Era ele, um farmacêutico dos bons, porque tinha trabalhado no final do século XIX como manipulador na tradicional farmácia ao Veado de Ouro, na Rua de São Bento, no centro da cidade. Tinha ele lá suas esquisitices, porque gostava de comer muito bem, como exemplo, cabrito assado com batatas, o delicioso risoto apimentado e o famoso ensopado de bucho de boi a tradicional dobradinha, regado ao bom vinho italiano; devorava também, de uma pancada só, um vidro cheio de pimentas do reino vermelhas e ardidas como fogo, sem se alterar ou beber um gole de água sequer, o que causava, no meio dos frequentadores daquela farmácia, um espanto, como se aquilo fosse um feito extraordinário, uma coisa de louco.

Vicente era o seu nome de batismo. Essas poucas e pequenas passagens me traziam a lembrança de criança ainda, porque, eu tinha na ocasião cinco anos de idade e não havia ainda, muita noção das coisas que giravam em minha volta. Aquele pouco que eu sabia, era contado na mesa pelo meu pai que morava com minha mãe, na mesma casa, junto de minha tia Marianinha, esposa do farmacêutico. Um dia, ele fez uma aposta com os amigos de bebedeira, quem conseguiria comer mais ovos cozidos; ele comeu 12 ovos de uma única vez e acabou ganhando a aposta. Acho que ele tinha estômago de avestruz. Meu pai ajudava nas despesas da casa, porque ele já trabalhava quase 20 anos no telégrafo da Estação da Luz e tinha um emprego estável, o seu salário, apesar de não ser lá dos melhores, dava para auxiliar a pagar o aluguel daquela casa, enquanto minha mãe ajudava dando aulas de piano e fazia alguns bordados para vendê-los aos conhecidos.

Eu nasci naquela casa, em 1938, de parto normal. Naquela época era difícil a mulher ir para o hospital, porque era regra generalizada, obrigatoriamente, a contratação da figura da parteira, que ia à residência da parturiente, e quase todos nasciam em casa. Depois disso, nos mudamos para a Rua Venâncio Aires, na Vila Pompéia. Corria os anos 40. Estávamos em plena Segunda Guerra Mundial. As coisas eram difíceis porque faltava combustível e os automóveis eram movidos a gasogênio e o pão era racionado, por causa da farinha importada da Argentina, que tinha dificuldades de entrar no Brasil por falta de transportes. Tínhamos direito a um único filão de pão, um litro de leite e quatro tabletes de açúcar mascavo (preto), depois de amargar uma madrugada toda na chamada fila do pão, à espera da vez para receber o precioso alimento.

A Rua Venâncio Aires, naquela época, não tinha calçamento; era de terra batida e as calçadas também não existiam. Havia na soleira da porta da rua um ferro, engenhosamente colocado na entrada das casas, para que as pessoas limpassem os pés sujos de barro quando da época das chuvas de verão.

Havia um salão de barbeiro do nosso Ruggiero, outro italiano excepcional, vindo da Calábria também, naquela leva de emigrantes do fim do século XIX e começo do século XX. Era uma figura carismática, um fígaro romântico a seu modo italiano, que executava com perfeição as ordens de minha mãe, que mandava ele cortar o meu cabelo a americano, ou seja, deixar apenas um tufo de topete e raspar o resto da cabeça com a máquina zero por medida de economia. Fumava o tradicional cigarro de palha e achegava-se com frequência a porta da barbearia e punha-se a chamar o pobre Carmenieri para que fosse jogar 500 réis no jogo do bicho no bar do Metello, em frente ao Palestra Itália.

Foi durante essa época, que existiam as famosas lagoas lá para os lados da linha do trem, na Avenida Santa Marina, e mais além, na várzea do bairro do Limão, entre a Barra Funda e a Água Branca, onde tinha uma bem maior, denominada “vargem”, pelos meninos, resultado das chuvas do verão que fazia na ocasião o regalo da molecada e preocupação das mães que ficavam aflitas, principalmente durantes as férias de meio e fins de ano nas escolas.

Do acontecimento de pular o muro do Palestra Itália, depois de passar pelo riacho que corria junto das paredes do clube na Rua Turiassu e ir jogar futebol na equipe do infantil, dirigido pelo mineiro, um mulato simpático, amigo da molecada e um eterno aficionado pelo time de profissionais do Palestra Itália. De urinar no precário e rudimentar chão do banheiro de cimento cercado por quatro paredes e que tinha acabado de ser asseado com sabão e creolina pelo porteiro da Rua Turiassu, que detestava a molecada, por causa dos costumes propositais de sujar o chão depois de ele se esfalfar de limpar.

Um dia, o Kito, moleque ágil, depois de urinar propositadamente no chão e fazer um montinho de cocô, com um filete voltado para cima, um em cada canto do chão do chamado banheiro, e ainda estar se esforçando no ato de expelir mais algum, foi surpreendido pelo porteiro o que motivou uma memorável corrida pela pista de atletismo com o homem transtornado, com a vara de marmelo em uma das mãos, tentando agarrar o porco do Kito, que era mais veloz que um gamo, voando pela pista de atletismo e entrou debaixo das arquibancadas de madeira do lado da Avenida Francisco Matarazzo e se escafedeu pulando o muro de volta para a rua.

As saudades do tempo de gandula, nas quadras de tênis da Francisco Matarazzo, onde se ganhava alguns trocados armando a rede e pegando as bolas de tênis que os jogadores arremessavam de lá para cá nas raquetes erguidas com muita elegância naquele jogo elitizado. Dos jogos de taco e do circulo riscado no chão de terra batida com um triângulo feito de galho de árvore que servia de tripé naquele jogo de bola de tênis, que os jogadores ficavam com os tacos de vassoura do lado do circulo, enquanto outro jogador atirava a bola com o intuito de derrubar o tripé; caso conseguisse o adversário tinha que entregar o taco e ficar atirando a bola e assim sucessivamente.

Ah! As bolinhas coloridas de gude, das astecas, dos palmos medidos entre uma cova e outra, geralmente feitas com tampinhas de cerveja, era outro divertimento da molecada; e o arremesso do pião de madeira enrolado na fieira, tinha que arrancar do circulo riscado no chão de terra, onde outros piões estavam colocados no centro para serem varridos de dentro em uma estocada do giro do pião do jogador que ao acertar e fazer atravessar o circulo, riscado no chão, então, era ele o ganhador dos piões; das figurinhas abafa, jogadas nos cantos dos cimentados dos degraus de alguma casa; às vezes, era feita uma escadinha e a batida com o canto da palma da mão fazia quase sempre todas elas virarem de uma única vez; dos lindos balões multicoloridos feitos com esmero e soltados nas noites das festas juninas, era a alegria da molecada; dos famosos busca-pés que eram cortados no cabo e eles saiam em disparada, girando no próprio eixo e explodindo quase no chão; das bombas chamadas “vela”, assemelhadas a uma vela comum, que eram colocadas em uma reentrância de um muro e que com a pressão da explosão, às vezes, derrubavam o próprio muro.

Jogos de picão que consistia em uma apara de cabo de vassoura, afinado nas pontas, e eram arremessados a distância com um taco de cabo grosso; das pipas, ou quadrados empinados com linha 24 ou 50, muito resistentes, que era distribuída em um dispositivo engenhoso de um carretel com um palito no centro e era enrolada no trançado de um triângulo, em uma bonita e eficiente engenhoca; das brigas de rua, onde se riscava na terra batida uma reta e cuspia no chão e dizia ao adversário se ele fosse homem, que passasse daquele circulo; às vezes ele passava e os murros e socos voavam de ambos os lados, só terminando quando alguém saía machucado com algum sangramento do nariz, algum dente quebrado, ou queixo deslocado. Essa foi a década de 40 da minha meninice e molecagem. As outras décadas deixo para uma próxima história.