Tudo o que aqui foi escrito é para matar o tempo e me dar o prazer de evocar aquele distante outono de 1960, cujas rápidas horas fugiram mal me dando tempo de saboreá-las. Não é que deixo passar bons momentos, não; mas é que o tempo naquela época parecia durar mais. Altos do Tremembé. Como tantas vezes a manhã chegou quando minha alma avara se não tinha ainda se enfastiado da claridade serena da luz da lua. O silêncio e a quietude circundantes mantinham-me semidesperto, de tal modo que, acabei levantando-me da cama. Debruçado na janela de meu quarto, pus-me a contemplar ao longe o mágico reflexo que, como uma sementeira celeste, caia sobre o serrado da Cantareira. O sol agora brilhava intensamente, deixando nos confins ocidentais manchas profundas e vermelhas, como sangue, e havia alguma coisa tão grande e tão nova na eterna repetição deste espetáculo proporcionado pela natureza que, meus olhos se comunicavam intimamente com minha alma, dando-lhes a sensação de estar contemplando as profundezas da obra de Deus.
O coração acelerou e o ritmo como se a imensidade vazia fosse sua morada familiar, e outra vez, as ideias ingênuas acudiam quase aos meus lábios nesta pergunta infantil: Por que seria que o horizonte do serrado da Cantareira se enfeitou esta manhã de lilás e ouro? Por um instante libertei o meu cachorro Pipoca da corrente que o prendia e pondo o bornal nas costas logo encontrei a trilha que me levaria até lá. Pus-me a caminho e em um determinado trecho da estrada, em uma pequena clareira lanço mão de gravetos disperso no chão e faço uma pequena fogueira para assar um pedaço de carne que havia trazido para o almoço daquele dia. Já sentado em um tronco de árvore estendo-me junto da fogueira e fico a olhar abstratamente as chamas amarelas e azuis; cai uma pinha seca, estalam os ramos, bandos de folhas revoluteiam no silencio profundo da mata, e meus olhos vão pouco a pouco se cerrando e os meus sentidos adquirem o ritmo do imenso emudecer da mata.
Eis-me agora no alto do serrado. O cachorro agora não se afasta de mim. No ar a atmosfera outonal é de cristalina transparência. As aves migratórias acabavam de partir rumo ao sul. Só alguns pardais travessos ou a sedentária garça vagueia ainda entre os ninhos pendentes nos galhos ocultos, entre os arbustos; mais longe uma campânula azul e outra flor silvestre balanceiam em uma obstinação do tempo ainda primaveril que se despede; uma seriema voa lentamente com o pescoço estendido. Depois de passados alguns anos de trabalho pedi a minha aposentadoria do ramo farmacêutico e, agora me sinto totalmente livre. Quando alguém me pergunta se tenho algum desgosto, respondo com um solene e peremptório não, tão áspero que, não me tornam a interrogar novamente. Pipoca meu fiel cão companheiro, contempla-me como se também, quisesse me perguntar algo. Durante a tarde, o céu se transformou em nuvens escuras e ameaçadoras. E a chuva produzida pelo calor do dia despenca com força. Tive apenas o conforto de me abrigar no vão entre duas enormes pedras. No barranco de frente do abrigo, corria a enxurrada deslizando rápida nos declives do terreno entre os seixos e nas raízes das plantas. O céu agora pardo, como em um descuido da natureza que descido sobre a terra, trazia a chuva forte, compassada e ininterrupta sobre as depressões do terreno.
De onde eu estava, no alto da serra, pude avistar no contorno da estrada dois homens caminhando vagarosamente, escorregando a cada passo na ladeira lamacenta. Estavam descendo procurando no meio do temporal um lugar onde pudessem se abrigar. A água da chuva pulverizava o ar, esbatia-lhe no corpo todo com seus pingos grossos. O ar estava picado de um cheiro acre, irritante, de ácido azóico e de ozônio. Quase aos meus pés, sob o alcantil das amoreiras, o riacho espraiava-se em uma corredeira rasa, sobre fundo de seixinhos alvos. Um ralo capão de mato começava à beira da água, indo morrer em uma pequena distância de onde me encontrava. Do meu abrigo alcantilado de rocha, mal grado a minha disposição, naquele momento, fico observando a maneira que o vento vem crescendo. Cinjo-me mais a montanha do serrado da Cantareira e permaneço imóvel observando como que hipnotizado a chuva que agora cai obliqua trazida pelo vento forte do sudoeste. Na rocha ao longo do serrado na distância apreciável de onde me encontro observo ao longe os contornos da cidade de São Paulo toda encoberta pela tempestade. São Paulo está visivelmente ao longe. Minha alma dilui-se em tudo o que há de bom na paisagem e no pensamento impelido por um infinito otimismo, que a torna melhor; e se nesse momento de plenitude se aproxima-se de mim, vejo através de uma clareira na mata o vulto de uma seriema de asas abertas prestes a voar. Estendo-me sobre um abrigo na rocha e meu cão Pipoca toma lugar junto a mim.
Uma rajada sutil eriça a relva molhada com cetíneos sussurros. Eu observo da plataforma da pedra e avisto um caminho acidentado e o que vai se desenrolando aos olhos é simplesmente maravilhoso. A planície estende-se ao longe, nivelada pela natureza, coberta de uma alcatifa sobre a cidade que se reveste, em quarteirões regulares de ruas de calçamento pardos, manchado aqui e ali por maciço verde da simetria das árvores nos quarteirões. Os campos famosos de São Paulo de Piratininga emoldurados à direita desponta o cabeço longínquo do Pico do Jaraguá e de leste a oeste, um pouco mais ao norte da cidade, desliza o Rio Tietê profundo, negro, taciturno, formando um vale extensíssimo, muito largo. A conformação atual desse vale, a turfa de material parcialmente descomposto constituem em grande parte, o alagamento anual durante o verão que nele se opera, tudo atesta que o Tietê foi, em tempos remotos, um grande lago espraiado e sinuoso, semeado de pequenas lagoas, de águas perenes cavando leitos que hoje retalham a planície.
A estação do outono anunciou-se pelo cheiro de enxofre vindo da terra úmida, embicou no hálito das folhas ao decomporem-se. No céu os pássaros começaram a retirar-se de seus ninhos, e dias depois, os regatos antes vazios, hoje estão engrossados pelas águas da chuva e cobriram-se no fundo de uma grande cascata. As vertentes do serrado da Cantareira negrejavam na sombra crescente, e a água deslizava por elas com um leve rumor, dando-lhes um brilho móvel que abreviava as horas. Ás vezes no céu pardacento, com um súbito fragor, acontece o estalar imenso de um trovão que faz trepidar os mais altos ramos das árvores. Olhei para o caule de uma árvore, e vi um vermezinho verde escalar infatigavelmente o tronco úmido, seus olhos quase cegos mal lhe serviam de guia e às vezes erguia-se nas patinhas dianteiras e tateava no vácuo, temeroso de novos obstáculos. A floresta pareceu-me mais nova, mais verde; por toda a parte cheirava a terra úmida; até dos lodaçais surgiam talos de delicados matizes as bonitas orquídeas. Nesses dias de modificações na natureza, o ar era de tal modo transparente. Que incomparáveis dias. A ânsia de desfrutá-los impelia-me de tal maneira que ia em excursão até os mais altos recônditos da montanha para apreciar no fundo do vale os contornos da grande cidade. Lá em baixo, estava São Paulo envolta em uma camada escura e espessa de poluição. Agora já é hora de voltar. Despeço-me da grande floresta da Cantareira, com uma inefável onda de alegria, prometendo em breve voltar novamente lá.