Fazia um calor forte marcando 30° graus, castigando quem estava nas ruas do centro da capital paulistana naquele verão de 1964. Subia a Avenida São João, a procura de filmes para minha idade (14 anos). Parei em frente do Cine Art Palácio esperando encontrar algum que fosse bem interessante. Estava em cartaz uma comédia muito louca com o nome de: "Deu a louca no mundo".
Entretido com as fotos do cartaz, meus ouvidos captaram uma insistente melodia muito próximo dali. Parecia um som diferente, inédito e contagiante. Minha atenção acabou se voltando para aquele som desconhecido trazido nas asas do vento. A cada tentativa para apurar o que seria tudo aquilo, minha curiosidade era aguçada na tentativa de elucidar aquele mistério.
Acabei perdendo o interesse nas fotos e me deixei levar em direção da onde vinha aquele som mágico. Ao me aproximar percebi que aquilo era Rock, mas com uma nova pegada, cantada por algum grupo novo. Fui carregado por aquele ritmo que ia encantando meus ouvidos. Fascinado parei bem frente à Galeria do Rock. Era dali que vinha o som. Eram duas lojas de discos uma em frente a outra, que disputavam quem tocava mais alto. A disputa atraia uma multidão de jovens e pessoas curiosas (típica cena paulistana).
Depois de ouvir mais de cinco vezes a mesma música em uma loja e outras cinco na loja concorrente, me enchi de coragem para perguntar quem eram aqueles caras e o nome da música. Enquanto uma loja tocava insistentemente a música do lado A, sua concorrente replicava com o lado B do compact disc. Ambas, lado A e B, balançava quem as escutasse.
O vendedor prontamente disse que se tratava da música: “I Want to hold your hand” (eu quero pegar sua mão) e quem estava cantando eram os Beatles. E se pôs a dar a ficha inteira dos caras: "Os caras eram um grupo de cabeludos de Liverpool, que acabam de estourar no EUA com os dois lados do disco, coisa até então inédita." O lado B leva o título “She Love you“ (ela te ama) tocada pela loja concorrente. Um clima bem animado se formava no entorno com a chegada de novos curiosos. Mesmo depois de reproduzir pela vigésima vez as mesmas canções o público não arredava o pé. Alguém poderia dizer que talvez fosse coisa do capeta.
Naquele momento da minha vida despertava o interesse pelo rock, baladas e músicas lentas (para dançar agarradinho). Porém desconhecia completamente os Beatles. Aqui do lado debaixo do equador, as notícias demoravam muito a chegar. As notícias ou informações demoravam a serem divulgadas pela mídia. Minha coleção de discos de então eram frutos de heranças, passadas por meu tio (geração dos anos 50 onde o Elvis, era o ídolo).
Fiz as contas mentalmente para comprar meu primeiro Compact Disc. Acabei por esquecer qual fora minha missão de ter ido ao centro da cidade. Rapidamente retornei pela Avenida São João dando antes uma passada na Pastelaria São João, que ficava na esquina com a Rua Formosa para comer meu pastel favorito, que era de banana, junto com caldo de cana. Enquanto me deliciava com o pastel observava o corre-corre das pessoas que passavam pelo Vale do Anhangabaú.
No trajeto de ônibus de volta para casa "viajei" sonhando ser um dos cabeludos de Liverpool… Com mil garotas ao redor… Apesar de nunca terem vindo ao Brasil, me tornei fã ardoroso do grupo. Ouvir as músicas até furar o disco era a única opção. A notícia da estreia do filme Help em São Paulo trouxe junto uma comoção e enorme satisfação aos jovens.
Como não poderia deixar de ser, estive presente na sessão de estreia no Cine Astor no Conjunto Nacional. Centenas de jovens com cabelos compridos tentavam imitar os cabeludos John, Paul, George e Ringo. A cada música que surgia na tela, era seguida pela plateia que cantava junto e batendo os pés no chão aumentando ainda mais o barulho. Parece que os queridos cabeludos não deram muita bola para conhecer o terceiro mundo.
Com uma enorme produção musical, os Beatles, mudaram o comportamento juvenil em todos os países do mundo. Seus gestos, roupas, aparência física, músicas e letras acabaram por modelar a juventude e uma revolução teve início com o seu aparecimento. Mas ficou a mágoa de nunca terem vindo por aqui. Paul vem tentando desfazer um pouco essa mácula, vindo ao Brasil várias vezes. Recentemente divulgou que o Brasil é um dos seus países favoritos e que tem uma enorme admiração pelo nosso povo. Porém nada poderia se comparar a se as apresentações tivessem sido com o grupo todo. Acredito que o Brasil todo iria adora, menos a Luiza que estaria no Canadá em companhia da Dulce.