Minha avó materna, D. Zezé, morava na Rua Vitorino Carmilo, entre a Glette e a Nothmann, juntamente com os tios Júlio e Lady e Olavo e Marina. Do primeiro casal, vieram meus primos Edson e Elaine; e do segundo Marcos e Sandra. Por volta de 1962 era o aniversário de Marcos e a família se reuniu no sobrado que tinha um salão enorme no térreo de quase 40 metros quadrados com um lindo lustre de cristal e clássica mesa de centro. Hoje constroem apartamentos de dois quartos menores que essa metragem, Ave Maria! Houve o comparecimento em massa da família e estavam lá meus tios Renato e Dalva.
Os dois tinham uma habilidade muito particular, combinavam sinais, gestos e palavras para adivinhar qualquer coisa na sala; meu tio saia por alguns instantes da sala e minha tia perguntava algo para um dos presentes e logo pedia para abrir a porta e meu tio entrava e adivinhava a pessoa e a frase que ela havia dito. Às vezes podia ser um objeto que a pessoa tinha no bolso ou mesmo algo que havia sido feito na ausência de meu tio. Eles acertavam tudo. Era um festival de crianças boquiabertas! Como se faz isto? Como consegue? Como pode? E não adiantava perguntar, pois era igual a segredo de mágico.
Com o passar dos anos, uma informação aqui e outra ali e a nossa visão mais adulta, foi decifrado o grande mistério. Só que os gestos, as combinações, as palavras eu jamais soube. Sempre a história do segredo "profissional". Tudo aquilo dava um colorido especial à festa e ficávamos conversando muitos meses depois, para tentar solucionar como era o processo daquelas adivinhações.
Muito tempo depois, cerca de 20 anos, ainda tive a grata surpresa de participar com meus tios, agora residindo em Campinas da brincadeira da tesoura. Formávamos uma roda de cadeiras e meu tio pegava uma tesoura que podia estar nas posições, fechada, cruzada e aberta. No início, ele passava a tesoura aberta à pessoa que estava ao seu lado e falava “aberta”; o outro fechava a tesoura e passava ao outro falando “fechada”, só que depois de algumas rodadas se instalava o caos e a tesoura aberta era passada com a pessoa falando “cruzada” ou fechada e falando “aberta” e nada mais coincidia. O importante era que nenhuma regra ou explicação era dada. As rodadas continuavam até que… Bingo! A posição que as pessoas falavam não era da tesoura e sim das suas próprias pernas.
Quem descobria não falava a ninguém e a percepção disso era na hora de passar a tesoura, quem já havia entendido deixava de falar errado a posição. Era o referencial diferente e a observação de cada um é que era importante. Maneiras inteligentes de reunir a família com diversões saudáveis e inesquecíveis. Tenho grande gratidão pelos meus queridos tios pelo tratamento que recebi e pelo privilégio em ser sobrinho deles.
Hoje, o panorama é meio diverso, a diversão envolve baladas, raves, bebidas alcoólicas e, à vezes, consumo de substâncias ilegais. Temos ainda que torcer para que a banda que toca na balada não "inventar" de soltar fogos de artifício dentro do local fechado.