Apesar de morar na zona sul, foi no Brás que estudei depois que deixei o curso primário. Foi um autêntico ginásio que fiz. Era na escola SENAI Roberto Simonsen, na rua do mesmo nome esquina com a Rua Assunção.
Era escola profissionalizante e de teoria. Na parte da manhã era oficina. À tarde, aulas de teoria onde aprendíamos a seqüência do curso primário. Português, Ciências, História, Aritmética e Desenho.
Na oficina os instrutores eram seu Nicolau e seu Antonio. Seu Nicolau bem mais velho era muito engraçado. Não mandava o aluno calar a boca. Gritava “Chaaara”. Já seu Antonio era mais novo e bastante calmo. De todos os alunos eu era o mais atrevido. Falava em política como gente grande, apesar dos meus 14 anos de idade. Também não era para menos, quatro anos antes já tinha eu participado da campanha de Getulio Vargas para presidente, em 1950.
Por isso que no dia 24 de Agosto daquele triste dia, seu Antonio veio dar a notícia a mim antes de os outros ficarem sabendo. Veio ao meu lugar e em tom baixo disse:
– Mario, Getulio Vargas se suicidou.
Espantado, não acreditei. Ele mandou olhar para a fábrica do Matarazzo, que tinha em frente e já estava com a bandeira a meio pau.
Quando ia para a escola, levantava às 5 horas da manhã para pegar o ônibus na Avenida Santo Amaro, uma distância de 800 metros aproximadamente. Ainda não existia a linha 152 Vila Olímpia.
Meu pai me dava todo dia o dinheiro para a condução e também para o almoço que a escola dava cobrando uma quantia subsidiada pelo SESI. Em pouco tempo já soube de uma coisa legal. Quem servia a comida, vinha em grandes latões de alumínio, eram os próprios alunos. E eles não pagavam.
Depois de servir comiam “no peito”. Falei com um considerado que servia para ele me arrumar uma boquinha. Não deu outra, logo estava lá servindo.
Os novatos na distribuição da comida eram chamados de calça branca. Começavam a servir pão ou banana. Bem que um só podia servir os dois. Mas sabe, sempre tem uma boquinha para mais considerados.
O mais difícil era servir o arroz. Ele grudava na espumadeira e precisava de rapidez para dar uma facada nele para deixá-la livre de qualquer grude.
O dinheiro da comida eu comprava figurinhas balas de futebol, foi ai que comecei a tirar figurinhas carimbadas. Mais tarde me veio à cabeça uma nova mutreta para galgar um dinheirinho.
Pegava o bonde toda manhã, na Praça Clóvis Bevilaqua, bem na virada da Rua Irmã Simpliciana. Pensei: Ir a pé até o Brás não é longe. Desci a Ladeira Porto Geral, 25 de Março, Parque Don Pedro, atravessei o rio Tamanduatei, em frente à assembléia Legislativa e, pronto, estava no Brás.
Mais um dinheirinho para o bolso do dégas. Aí não tinha queijadinha que bastasse. Quem se saiu bem, foi o “Deixa que eu Chuto” o vendedor de raspadinha, queijadinha e outros quitutes.
Nas aulas de teoria era outra coisa que dava gosto. Nossa sala ficava ao lado da sala das poucas meninas que lá estudavam. Era um olho na lousa e outro nas pernas delas. Até que tinha umas que davam gosto ver.
Algumas sem vergonhas, sabendo de nossas intenções, levantavam a saia para coçar as cochas de propósito.
Eu gostava da Celina, mas era meio envergonhado para iniciar o papo. Um dia deu certo de estar com ela longe das outras e fui para um papo “cabeça”:
– Oi,… dia lindo hoje, não?
– É mesmo. É garantia que não vai chover este fim de semana.
– Já que é assim, podíamos bater um papo mais amiúde?
– Bater um papo? que tipo de papo garoto?
– Bem sabe… Eu… Ou, melhor… Nós….Quer dizer, ele…Sabe….Não é,… Pois, é…Então.
– Sai fora garoto. Se enxerga, meu. Foi a resposta da minha primeira investida para um namorico. Ela era dois anos mais velha do que eu.
Me refiz logo, uma loirinha que trabalhava na fábrica do Matarazzo em frente do SENAI, cabelos compridos, uma bonita trança, vestido de chita, se engraçou comigo, e não foi preciso nem papo. Pronto, tinha uma namorada, era a primeira. E a primeira nunca se esquece. Passava todo garboso, mão no ombro da mina, parecia um biscatão desfilando minha “exuberância”. Um dia passei a maior vergonha. Andando com ela pelas ruas do Brás, ali no fundão da Rua do Gasômetro perto do largo da concórdia, estava muito concentrado. Quando vi o circo estava armado.
E não havia jeito de a lona baixar. Ainda bem que tinha pegado minha chuteira no sapateiro e consegui encobrir a coisa.
A coisa mais gozada foi o trote que nos foi passado pelo Waldomiro. Foi demais. Ele era bem mais velho do que nós, que estávamos na faixa dos 14-15 anos.
Disse-nos que tinha dado uma trepada numa francesa muito legal. Convidou uns cinco garotos para ir também. Mas tinha uma ressalva. Todos tinham que se pesar antes.
Era perto do cine Piratininga, na Avenida Rangel Pestana. Passamos numa farmácia e todos se pesaram e anotaram o peso. Ele então falou: Agora vamos, e foi voltando para a escola. Todos perguntaram numa só voz. E não vamos trepar com a Francesa?
– Mas vocês acabaram de trepar nela, disse ele.
A Francesa que ele se referia, era a balança. FILIZOLA.
Mas gostoso mesmo eram as aulas de desenho com professor Fortes. Por de trás das enormes pranchetas, ficávamos batendo papo sobre política. Era o ano de 1955, e tinha tido eleição para presidente. Eu passava toda manhã pela Praça da Sé, e lá tinha o placar dos resultados das apurações. Uma pessoa com giz ia colocando novos resultados. Falei para o professor Fortes: Acho que o Adhemar já ganhou!
– Que é isso! Ganhou nada! O Juscelino já está na frente dele!
– Professor, o placar da Praça da Sé esta dizendo que o Adhemar tem quase um milhão de vantagem.
– Que nada. Se eles colocarem lá que o Juscelino passou a frente é capaz de ter uma revolução aqui em São Paulo. Minas Gerais todo votou em Juscelino. Pode crer que, aos poucos eles vão diminuindo a diferença e depois vai dar Juscelino.
Não deu outra. O homem era um sábio.
Na oficina que era de móveis estofados, a gente fazia bola de crina e algodão, ficava redondinha pulava bem. Tinha uns 30 centímetros de circunferência. A gente ia jogar no parque Don Pedro quase em frente da assembléia legislativa. O jogo terminava quando vinham os guardas da assembléia, ou então quando a bola caia no rio Tamanduatei.
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