Lá pelos idos dos anos 50, eu contava com 15 anos, meu pai, soldado da antiga Força Pública, ajudava-me em suas folgas a empurrar um pesado carrinho de madeira cheio de mercadorias (miudezas em geral) que vendíamos nas feiras livres.
Além do peso do carrinho, havia ainda um estrado de madeira e uma lona para cobertura da banca que montávamos em locais determinados nas feiras.
Exceção feita às segundas-feiras, dia dedicado às compras, trabalhávamos todos os dias, quinta-feira, Vila Santa Isabel, na Rua Piramboia, sábados, Rua Vale Formoso, Vila Santo Estevão, domingo Vila Formosa, Praça Doutor Sampaio Vidal, terças e quartas alugávamos espaço em um caminhão para transportar nossas mercadorias até as feiras de Arthur Alvim e São Miguel.
Realmente era uma luta a briga por um bom lugar nas feiras, em alguns casos meu pai homem jeitoso, conseguia um bom ponto, até pela condição de ser militar, era ajudado pelos coordenadores e fiscais da feira, embora seu estilo não fosse dar "carteirada".
Com uma pequena reserva financeira que conseguimos amealhar após alguns anos "empurrando carrinho", meu pai comprou um caminhãozinho Ford ano 1928 que às vezes só pegava na manivela.
Certa feita, um moleque, nosso vizinho de nome Martin, levado da breca, filho de um senhor Iuguslavo mexeu com meus brios, dizendo que eu não teria coragem de ligar a "ximbica" do meu pai e dar uma volta até o final da rua.
Meu pai deixava o "molho" de chaves da caminhonete em um lugar alto da casa, mas eu estava determinado a mostrar para o Martin, que tinha coragem de ligar a "ximbica". Eu ao volante e o Martin do meu lado, ocorreu que nem precisou da manivela liguei a ignição a "ximbica", deu um salto e foi pipocando rua afora, o freio não funcionou, tampouco o desembraio.
Lá ficou a velha caminhonete no meio da rua há alguns metros de minha casa ainda com o motor funcionando. Não satisfeito pela proeza, resolvi, pasmem, dar marcha ré para estacionar o "veículo" defronte à minha casa. Aí completei o serviço, pois a roda estava toda esterçada em uma posição ideal para acertar o muro, e não deu outra, engatei a ré, pisei no freio e no desembraio, e nada, pois a velha "ximbica", foi de encontro ao muro, espatifando-o juntamente com o portão de ferro.
Quando dei conta do estrago, fugi para o fundo do quintal e escondi-me em um banheiro externo mal cheiroso, mas que veio a calhar, pois o medo que meu pai me castigasse era grande, mas felizmente minha mãe conseguiu contornar a situação aplacando a ira de meu pai que chegaria logo depois, estupefato pelo cenário encontrado, o muro destruído e a caminhonete balançando no que sobrou dele e com as rodas traseiras a ponto de cair no jardim da casa cujo terreno era abaixo do nível da Rua. Precisou o concurso de várias pessoas para tirar a "ximbica" daquela posição.
Foi a maior travessura de minha vida. Felizmente meu pai não me castigou como devia. E o Martin? Sei lá, até hoje não tenho ideia de aonde foi se esconder.