O Brás e minhas histórias…

Saindo, quase sempre após as vinte e três horas, do velho Colégio Carvalho de Mendonça, no igualmente velho Brás, quase sempre preteri a Rua Piratininga, preferindo, para atingir a Rua Ana Nery, onde morei décadas, tomar a doce vicinal da Rua Professor Batista de Andrade, onde as pequenas casas tinham seus jardins com vasos de plantas floridas e o encanto de personagens que, até hoje, dançam impunemente em minha memória.

Como naquele atalho – “ah”! Que doce atalho! – não consumei um ambicioso desiderato, foi no final da Piratininga que conheci Laura. Laura Polida. Nascida no Brás, crescida no Brás. Uma criatura que não conseguiu apagar da minha mente as luzes irradiadas pelo olhar da impossibilidade e dos jardins floridos da Professor Batista de Andrade…

Isso forma, de certa maneira, um triste emaranhado, por vezes sombrio, que tolhe e obnubila a mente e talvez todo o meu ser. Extraí algumas lições e agora posso divagar, sem desejos literários e com escusas pelo possível enfadonho:

Ódio e amor são ínsitos ao ser humano. Estão-lhe no âmago da alma, do íntimo e da essência mesma de cada qual. Dissociam-se e associam-se maquiavelicamente, em conformidade com a conveniência ou oportunidade do momento vivido. São irmãos univitelinos que se amam e que se odeiam e, nesse passo, os seres humanos e suas mazelas é que verdadeiramente lhe são ínsitos. Dessa massa disforme nasce o horrendo. Assim somos, todos. Mas a Laura – Deus, por onde andaria ela? – Não! Laura, a Polida, sonhava, dormindo ou acordada. Sempre. E nos seus sonhos, um eterno habitante: o impossível. Um príncipe que, em elegante, destemida e intimorata cavalgada lhe tomasse pela cintura e a colocasse no dorso do corcel branco; um exemplar de macho, de rosto idem, sorrindo-lhe em convite ao amor; uma velha, solitária e rica dama que lhe pedisse os préstimos e com ela viajasse mundo afora, a aragem batendo-lhe nas faces vermelhas quando na proa do luxuoso navio, ou, então, um médico sentindo-se mal no momento da cirurgia, ela com o bisturi nas mãos, uniforme branco ensanguentado, salvando heroicamente o paciente…

Laura não andava, saltitava, como se os caminhos, no seu Brás, com o cheiro que poucos conheciam, fossem um palco por onde desfilaria seu desajeitado balé, mais pantomima que arte. Impulsionava-a não uma força íntima, mas a premente necessidade de estar sendo contemplada, sondada. Gesto que, pela repetição, deixara de ser a medo e a custo, para ser mecânico, maquinal.

Nada poderia fazer com que perdesse o permanente sorriso no rosto. Um rosto nem muito feio, nem pouco bonito. Simples, muito simples, daqueles para os quais não olhamos, mas que nos olham. Seus sonhos se acumulavam, pois os tinha a cada minuto. Tudo era ensejo para novas maquinações mentais, todas elas sonhadoras, um manto de púrpuras, símbolo de riqueza e dignidade social. Um trono a cada degrau, ainda que o fosse na descendente.

Mas existem filtros invisíveis que explicam certas coisas. E o Brás, assim como o universo, era também tocado pela noite lúgubre. E era no momento da solidão do quarto escuro que a verdade se revelava. A frustração assomava, dominando-a. E a fragilidade do ser humano cedia lugar à dura realidade, fazendo-o mergulhar no que eu chamaria – copiando sei lá quem, ao que me parece – na eternidade das coisas inócuas, aportando quase sempre no inusitado, no estranho.

Tadinha, lembro-me dela com amor. Eu não o sentia naquele tempo, pois a minha ótica era a do imediatismo e da irracionalidade e a dela a do amor. Ela amou você, amou a mim, amou a todos os homens que lhe pareceram aqueles para os quais se entregaria em um estalar de dedos. Mas nunca sequer pensou em amar o porteiro, o homem comum das ruas, o vizinho, o mulato, o entregador de pães. Seu ideário não contemplava tamanho sacrilégio, um ultraje à sua dignidade.

Não sei onde anda. Talvez casada com um homem simples, como certamente lhe estava destinado desde sempre; sem véu, mas com aflições, angústias, mágoas; sem grinalda, mas com o nojo do beijo procurado, ainda que sua própria boca (perdoe-me, Senhor, não o digo por maldade, você sabe!) estivesse desdentada. Filhos, muitos. Afora os do pensamento do companheiro, de quem por certo fugia e, quando entregue, gozo mendaz, fechava os olhos cansados e imaginava o eterno e desconhecido príncipe.

Não sei onde anda. Talvez morta. Morta no sentido mais animal, físico, pois morrera a cada dia, tantas as frustrações dos seus instantes de vida. Gostaria de estreitá-la por instantes, mesmo que – melhor seria assim – não se lembrasse de mim.

Como não conseguiria, e realmente não consigo, descrever muitos dos seus atos, gestos e trejeitos, com os quais convivi por longos dias, deixo que dancem na minha memória, sem cronologia, sem cores, sem sentido. E isso me dá vontade de chorar.