Quando minha família – pai, mãe, eu e duas irmãs – saímos da Lapa em 1966, fomos morar no bairro da Vila Nivi, na Rua Mata Redonda. Recordo muito vagamente da escola que havia na praça e que já li aqui depoimento de outra antiga moradora do bairro – a Walquiria – que não lembro de ter conhecido pessoalmente, mas quem sabe já não nos cruzamos pelo bairro pois morávamos quase perto.
Dessa época (final dos anos 60) tenho recordações saudosas, porque além de eu ser criança (eu tinha quatro anos, minha irmã mais nova tinha três e a mais velha tinha 15 anos) os vizinhos mais próximos eram como parte da família. Era comum meu pai sentar, ao final do dia, nos degraus da entrada da nossa casa e vizinhos se aproximarem para conversar com ele enquanto outros ficavam em suas próprias calçadas, também conversando com outros vizinhos. Os filhos ficavam brincando na rua, nas calçadas, com a bola, com a bicicleta ou com as outras crianças.
Dentre as boas vizinhas, recordo muito da D. Zuilla (tia da cantora Cláudia) que muitas vezes socorreu a minha mãe quando necessário. A D. Zuilla não teve filhos, era viúva, adorava crianças e ela tomava conta de nós enquanto minha mãe trabalhava na feira com meu pai. A D. Zuilla levava eu e minha irmã mais nova para passear pelo bairro, pelas casas da vizinhança pois ela era muito popular no bairro e era sempre bem recebida.
E eu a admirava por isso. Teve vez que ela foi comigo na Biblioteca em Santana ou na região central de São Paulo para que eu pudesse fazer meu trabalho escolar. Na adolescência, ouvia muitos conselhos dela. Ela tinha um enteado – o Odilon – era como uma criança, pois tinha um certo retardo mental, era pessoa extremamente responsável e confiável. Trabalhou por muitos anos, em uma só empresa, como motoboy em uma loja de calçados na Rua Barão de Itapetininga e só parou de trabalhar quando faleceu com quase 80 anos. O Odilon adorava trazer filmes/ desenhos de Walt Disney para assistirmos em um projetor antigo que ele tinha comprado a prestações, no Mappin. Nos sábados à tarde, íamos a casa dele para assistir aos filmes e desenhos que eram projetados na parede verde da sala. A D. Zuilla servia bolo, pipoca e refrigerante. Era muito bom e divertido, pois o Odilon era tão infantil quanto as crianças que estavam na casa dele.
A D. Zuilla tinha um cachorro preto que chamava-se Tupi, ele era grande mas muito manso, tão manso que podíamos subir nas costas dele e nada fazia além de brincar com as crianças. Durante as férias, a D. Zuilla sempre abrigava em casa os sobrinhos e sobrinhas que vinham da Mooca passar uns dias e eram nossos amiguinhos das férias.
Na época (isso no final de 60/ início 70), a casa de meus pais não tinha muro de alvenaria dividindo os fundos e laterais da casa, então era comum passarmos para a casa da D. Zuila assim como passar para o terreno do outro lado onde era a casa da D. Manoela que também foi ótima vizinha e as netas dela vinham brincar conosco. Da D. Manoela lembro dos cabelos curtos e bem branquinhos, era pessoa bondosa e sorria quando brincávamos no quintal dos fundos enquanto ela lavava as roupas no tanque.
Outra vizinha que recordo, mas vagamente, é a D. Madalena, que morava do outro lado da Rua Mata Redonda, e era ótima pessoa, muito querida pelo bairro. Havia o marceneiro português – o Sr. Américo – que morava defronte a casa de meus pais e ele fazia ou consertava os móveis de nossa casa. Mas ele também me ajudava a fazer as maquetes para meus trabalhos de ginásio. Eu estudava na escola do bairro conhecido como "Verdão".
Tinha o Sr. José enfermeiro, o Sr. Joanim, ótimo mestre de obras que também morava na Rua Mata Redonda, além do Sr. Antoninho, outro mestre de obras, morador na rua de trás – a Rua Baltazar de Moraes – e muito amigo de meu pai. A doce Dona Rute, uma amor de pessoa, sempre sorridente e atenciosa quando falava/ ouvia as pessoas. O Sr. Orlando e sua esposa Ana (filha da D. Manoela), além da Conceição, irmã da Ana. O Sr. Aureo, que era o que chamamos hoje de "marido de aluguel", isto é, fazia pequenos consertos nas casas da vizinhança.
A D. Ofélia, que enviuvou de repente e teve que criar corajosamente os quatro filhos. Da D. Helena, que tinha o bazar na Rua Canedos e me ensinou crochê. Acho que eram nas manhãs de sábado, por volta das 7h30, eu acordava com o cantarolar de um senhor que passava na rua vendendo peixe e ele cantava repetidamente: “sardinha, pescada branca, êêêêêê” e depois chacoalhava algo que trazia nas mãos. Fiquei anos sem entender o que ele gritava, mas tenho saudades de ouvir o som da cantoria e do chocalho.
E lembro-me de tantos outros rostos, mas não recordo os nomes, infelizmente. Recordo outros episódios vividos na Vila Nivi, de sons, músicas da vizinhança e de casas que não existem mais. Durante os passeios com a D. Zuilla pelo bairro, éramos convidadas a entrar em tantas casas, comer bolo, tomar café, sucos e de sermos bem recebidas e a D. Zuilla sempre tinha "causos" para contar.
Hoje, são outros os moradores da Rua Mata Redonda, a maioria dos antigos faleceram, outros se mudaram com o tempo. Até eu mudei! Dos antigos moradores sobraram poucos: a minha mãe, a D. Ana, a D. Rosa (que mora na Rua Baltazar de Moraes quase chegando na Av. Guapira), o Sr. Antoninho, que mora na Rua Baltazar de Moraes, o Sr. Miguel.
Morei na V. Nivi dos quatro aos 34 anos de idade e, quando vou lá, às vezes faço um flashback da época de minha infância/ adolescência. É muito bom manter as boas recordações, principalmente de pessoas que valeram a pena ter conhecido.