A primeira pessoa que me veio à cabeça quando retornei depois de alguns anos ao bar Capitólio foi o Barbosinha. Eu estava ávido em saber da gente da rua, dos velhos amigos, das novidades, haja vista que saí do bairro já fazia “uma cara”.
"O Barbosinha?" – respondeu o balconista Prefeito, um cearense cujo verdadeiro nome eu nunca soube e a única cara que reconheci entre os funcionários do bar do tempo em que eu o frequentava, suspendeu a lavagem dos copos e apontou para cima o dedo indicador cheio de espuma de sabão. "Já está lá, no andar de cima".
O Capitólio é uma construção antiga, mas não é um sobrado, nem tem piso superior, se é que me entendem. Bateu-me de súbito uma tristeza. Destas que provocam as perdas, as ausências. Estaca rugosa fincada no peito que começa a murchar rapidamente como uma câmara de ar.
– Não diga, rapaz! E como é que foi?
– "Bebida"
Pensei logo em cirrose: o fígado esfarelando-se, o definhar lento e irreversível de um infeliz desenganado e abandonado à própria sorte em um leito de hospital da rede pública. Mas não foi bem assim, o Prefeito explica:
– “O Barbosa deu para beber além da conta, não ligava mais para nada, perdeu o emprego, nem banho tomava mais… Desempregado, bebia ainda mais. Uma noite, coisa de um mês atrás, tropeçou nas próprias pernas e bateu com a cabeça na guia aí em frente. Foi uma sangueira só. O coitado revirou os olhos, “estrebuchou”, esticou-se todo e “puff”! Apagou. O pessoal aí do ponto de táxi ainda tentou socorrê-lo, mas já era tarde”.
Eu ia dizer que para morrer bastava estar vivo, mas me ative a um "enfim descansou", que bem poderia lhe servir de epitáfio. Embora eu respeite a descrição feita pelo atendente do “O Capitólio”, devidamente confirmada pelos que foram testemunhas do acontecido, devo acrescentar que há outra versão para o passamento daquele alagoano rude, tosco, de coração de ouro, que como porteiro do Edifício Casablanca e fez-se querido por todos ali na confluência das ruas São Joaquim e Glória.
Homem responsável, respeitador, prestativo, praticava boas ações que, enumeradas, devem lhe garantir pelo menos o cargo de porteiro eventual de São Pedro, lá em cima. Sem esperar recompensa, ajudava as crianças que retornavam da escola a atravessarem a rua movimentada, dava uma mão às velhinhas que voltavam da feira com carrinhos abarrotados, intimidava os pequenos delinquentes e trombadinhas que estouravam carros para roubar toca-fitas… Era, por assim dizer, uma espécie de super-herói da rua.
Dizem que o ex-carcereiro de presídio em Maceió, homem que vivera situações-limite em que a diferença entre a vida e a morte dependia de ações acertadas e podia-se comparar a uma frágil vidraça ante uma chuva de granizo, fauno afamado por suas aventuras amorosas envolvendo as empregadas e babás que serviam aos condôminos do Casablanca, achou logo de cair de amores por uma solteirona aposentada do serviço público. Esta senhora, moradora de um prédio vizinho, mulher estudada e viajada, a pretexto de utilizar-se das habilidades manuais de Barbosa para sanar problemas domésticos como troca de lâmpadas e desentupimento de ralo, levou o fogoso porteiro para cama, fez dele gato e sapato, usou-o e jogou fora.
E aquele Barbosinha talhado em pedra, pau para toda obra, forte como são os que procedem do nordeste, que não temia cara feia nem levava desaforo para casa, que sofria com as saudades de casa e o frio de São Paulo, literalmente desmoronou. Enfim, analisando por este ponto de vista, não se pode afirmar que foi propriamente a bebida que derrotou o Barbosinha, mas o coração.