Herança italiana

Contava minha mãe, que minha avó Nina (Antonia) veio da Itália com 11 anos, e depois do cadastro no Brás foram trabalhar em uma fazenda de café. Não sabiam ler, então tudo o que ganhavam ficava para o dono da fazenda. Minha bisa resolveu mudar para Agudos e minha avó casou-se com Francisco Guaranha, tiveram cinco filhos, um, o Toni, era especial.

Meu avô era jornaleiro da Cia de trens na estação de Agudos. Seus pais tinham lojas de tecidos e deram duas datas de terras a eles no casamento, ao lado da estação. Em frente da casa que construíram, plantaram dois pés de mangas. Minha avó era costureira de fardas. Em um domingo, mais ou menos 8 de Agosto, o chefe do meu avô pediu para ele ir ajudar a tirar tijolos do poço próximo à estação. Ele não queria ir, não estava se sentindo muito bem, mas minha avó insistiu para que ele fosse a fim de não perder o emprego.

Minha avó costumava, aos domingos, fazer macarronada, ela mesma fazia a massa, pois todos seus parentes passavam o domingo com eles, então matava uns quatro frangos para o almoço, era uma festa para as crianças, brincavam no quintal, subiam nas mangueiras e minha mãe caiu na cerca de arame farpado, sorte que seu vestido era de tecido tipo lona e comprido. Ficou presa no arame de pernas para o ar e suas primas morrendo de rir, até que minha tia Maria ajudou-a a descer. Nisto chegou um garoto que era gago e fazia sinais que precisava falar com D. Nina. O que havia acontecido?

Meu avô já tinha tirado todos os tijolos do poço e já estava quase saindo quando passou um trem e o poço fechou, e seu chefe ao invés de ajudá-lo a sair, saiu correndo, deixando ele com o braço de fora do poço fechado, então este garoto, que era gago, foi dar a notícia e entrando na sala sentou em cima do baú afundando a tampa, então ficou mudo. Ao mesmo tempo, minha tia Rosinha levou minha avó até sua casa e quando minha avó olhou em cima da mesa, lá estava meu avô morto, então desmaiou. Após sua morte minha avó ganhou o seguro e comprou cinco máquinas de costura e começou a dar aulas para as moças e também continuou fazendo fardas.

Nesta época minha avó estava com 30 anos, então meu tio Constantino, talvez por inveja dela estar dando conta da casa e dos seus cinco filhos, todos estudando no grupo escolar de Agudos, aconselhou-a a ir embora para o sertão, pois lá, segundo ele, não haveria perigo para criar as meninas. Na estação, um amigo do meu falecido avô avisou-a para voltar para casa, que ele mesmo tinha fábrica de porcelanas em São Paulo e daria emprego aos seus filhos. Ela não deu ouvidos e foram para o cafezal novamente. Contrataram vários alqueires de café para cuidar. Tinham cavalos, alguns porcos, pois naquele tempo, matava-se porcos e salgava a carne, derretia a banha e usava para cozinhar.

Minhas tias já tinham se casado e minha mãe, que era a caçula, estava com 15 anos. Então minha avó conheceu um homem que veio do nordeste e resolveu se casar. Todos foram contra este casamento, mas minha avó pegou um cabo de vassoura e mandou que se calassem, ela mesma fez uma festa de arromba, não sabia nem se ele, o tal do Ananias, tinha parentes. Neste tempo como alguns italianos, inclusive minha avó, não sabiam ler, um tal de Manoelzinho começou a dar aulas depois do trabalho e minha mãe ficou interessada. Aprendeu logo, e o professor deixou escrito na lousa que queria falar com ela, a minha mãe. Minha avó achou que era lição de casa, então no domingo, meu pai foi pedi-la em casamento.

Este tal de Ananias maltratava meus tios, obrigando-os a trabalharem mesmo doentes, enquanto ele saía para as corredeiras no seu terno branco montado em um alazão. Minha avó que não queria o casamento, não fez festa, apenas uma sopa para os padrinhos. Minha mãe resolveu ir embora para uma cidadezinha chamada Linz, teve duas filhas e quando sua mãe e padrasto vieram também, para morar perto deles, ela resolveu vir para São Paulo. (Seu irmão Toni fora assassinado, e seu padrasto quase arrancou a orelha de seu irmãozinho de três anos, obrigando o menino a ler).

Vieram então para São Paulo, minha mãe trabalhou na Santa Casa e meu pai foi entregador de marmitas, moraram em vários bairros e acabaram indo morar no Jardim Paulista, nasci na Rua Vieira Maciel esquina com a Groenlândia, meu irmão mais novo nasceu em frente ao Manequinho Lopes, meu pai já vendia frutas para os trabalhadores. Mas minha mãe queria criar cabras e ter um lugar para plantar verduras. Então foram para Engenheiro Goulart. Esqueceram da mãe e do padrasto. As nossas tias que moravam em São Paulo, nos visitavam, era a tia Carolla e a tia Mariquinha. Um dia recebeu uma carta: Fazia um mês que minha avó havia morrido e minha mãe não parava de chorar, eu tinha cinco anos e me lembro até hoje o quanto doía meu coração ao vê-la chorar. Bem a história daria um romance. Mas vou parar por aqui.