Memórias pecaminosas

Época : meados dos anos 50;

Protagonistas : Zilando Ribeiro de Freitas, João Baptista da Costa Menezes, Monsenhor Bastos e Eu;

Locações : Rua Augusta, Rua da Consolação, Igreja de N.S. da Consolação, Rua Bento Freitas, Rua Rego Freitas, Rua Marques de Itu.

Eu residia na Rua Augusta, 291, o João Baptista (Juca) morava no quarteirão de cima, o numero não me recordo, mas era do lado par na altura do numero 400.
Ele morava com os pais e irmãos, duas tias e o tio Monsenhor Bastos (todo são paulino deve lembrar-se da figura) em uma casa enorme que permitia, ainda, a locação de um ou dois quartos.
O Zilando, nessa altura dos acontecimentos, morava com a família na Rua Bento Freitas esquina da Rua Major Sertório, onde seu pai tinha instalado uma pensão (nela foi, inclusive, feita parte do filme Modelo 19, com Jardel Filho).
Na Rua Rego Freitas, esquina da Rua Marques de Itu, havia sido instalada uma sorveteria com sorvetes tipo italiano (coqueluche da época) e nós ficamos fãs da localidade.
Porém nos faltava o principal para as visitas constantes que pretendíamos fazer. Faltava verba suficiente para matar nossa vontade gelada.
O que fazer? Qual seria a solução mais viável?
Reunidos os três, discutimos várias possibilidades e deliberamos por optar uma idéia que, na realidade, surgiu da adaptação de várias outras sugestões apresentadas. Iríamos fazer três listas de captação de contribuições em nome da Igreja de N.S. da Consolação, devidamente assinada pelo responsável, Monsenhor Bastos e arrecadar a verba que nos fazia falta.
Plano definido pusemos mãos à obra, em folhas de papel almaço pautado, fizemos um preâmbulo mais ou menos assim:
“A igreja de N.S. da Consolação, através de seu responsável Monsenhor Francisco Bastos autoriza seus representantes, portadores desta lista, a arrecadarem contribuições para a compra alimentos de pessoas carentes da comunidade”
Eu como chefe dos coroinhas, fui até a sacristia e consegui chancelar as folhas com o carimbo oficial da Igreja, o Juca, mais chegado ao tio, forjou uma assinatura parecida e, os três, devidamente documentados saíram para executar a missão.
O Plano estava dando os resultados esperados. Todas as tardes, reunidos, íamos à sorveteria e nos fartávamos de sorvetes.
Não sei como, um belo dia, o comentário sobre a lista chegou aos ouvidos do Monsenhor. Ele, mais ladino do que se podia esperar, iniciou investigação particular e, claro, chegou aos três pequenos meliantes.
Me lembro como se fosse hoje. Chegamos na Igreja totalmente despreocupados, entramos na sacristia e zapt! Fomos aprisionados e suspensos pelas orelhas por um religioso totalmente fora de suas condições normais.
Informados que toda a história tinha sido descoberta, fomos obrigados a devolver as três listas que já estavam bastante sujinhas de tão usadas, levamos uma tremenda reprimenda e ainda, como penitência, tivemos de rezar o terço a tarde inteira na presença de todos os fiéis que chegavam à Igreja.
Monsenhor ainda teve a “audácia” de ir até a sorveteria e passar uma descompostura no proprietário, ameaçando-o, inclusive, com uma queixa policial.
Assim terminou nossa aventura e como prejuízo maior, a proibição do proprietário da sorveteria de nossa presença no recinto. Foi-se também nosso melhor quitute…
Que Deus nos perdoe a peraltice!

e-mail do autor: [email protected]