“Quem não se comunica…”

– "Moça, o documento está errado. Fui lá e o pessoal disse que o meu não, mas o dela precisa pôr o dado certo. Como eu faço agora?"

Com essa frase, teve início o atendimento a um cidadão no local onde presto serviço voluntário aqui na capital paulista.

A comunicação, fator essencial para a sobrevivência do ser humano, parece encontrar entraves em determinadas situações, transformando-se em um verdadeiro código secreto.

Após várias perguntas como:"O senhor foi lá aonde?"; "Qual é o documento?"; "Quem é ela?" e "O que está errado?", conseguiu-se, finalmente, decodificar a frase, que seria mais ou menos assim:

"-Estive no Cartório para pedir a 2ª via da minha Certidão de Casamento e a da minha irmã; a minha está correta, mas a dela precisa ser atualizada, pois ela se separou. Como fazer isso?"

Assim, após entender o que ele queria, o cidadão foi encaminhado para solucionar seu caso.

Sabemos que a escrita ainda é um mito para uma parcela significativa da população brasileira, que pela pouca escolaridade e cultura, não tem essa facilidade, mas a expressão verbal vem sofrendo, a olhos vistos, uma piora impressionante.

Em contato com a população de várias camadas sociais, culturais e faixas etárias, incluindo os mais jovens, percebe-se nitidamente a dificuldade que essa parcela de pessoas tem em sintetizar e expressar ideias, bem como encontrar palavras para narrar um fato; não raro, essa narrativa, além de confusa, vem recheada de gírias e expressões incompreensíveis.

Há muitos anos, o mago da comunicação, Chacrinha, já dizia que "quem não se comunica se trumbica". Infelizmente percebemos que essa dificuldade é uma realidade cada vez mais presente em nosso país. Uma pena!

Com isso, aqueles que têm o dom da palavra e da escrita, e as usam para manipulação de massas, tem cada vez mais espaço para continuar fazendo, em nome do povo, o que não gostaríamos que fizessem.

Nossa vida, nossa pátria, nosso povo, nossa língua! Somos tudo isso! Se nos três primeiros itens estamos cientes de nosso papel, talvez falte um pouco mais de empenho quanto ao último.

Falemos, pois, ouçamos, então, leiamos, enfim, compreendamos e interpretemos para não nos “estrumbicarmos” mais.