O meu time de futebol é o maior do mundo.<br>Anda meio desacreditado atualmente. Diria, completamente irreconhecível e praticamente esquecido. Mas já foi bom, e quando eu era criança ele era o maior do mundo.<br>Aliás, quando a gente é criança tem uma enormidade de opções para brincar e guarda de cada uma deles um carinho especial.<br>Hoje a infância é passada quase que individualmente com vídeos games, computadores e que tais, na minha época não. Tínhamos muitas opções para cada hora, cada dia, cada época do ano.<br>Jogar futebol era a principal delas. Primeiro na rua de terra, quando a Taufic Camasmie ainda se chamava Nevada; na Rua Atlântica, já no asfalto e depois, quando colocaram luz na rua, jogos noturnos.<br>Que delícia os jogos noturnos, ficar até as 10 horas da noite e chegar em casa cansado, suado, com o joelho em pandareco e a roupa idem. De noite, muitos abraços pelos gols feitos na rua, de manhã, alguns safanões pelas roupas sujas, do corpo e da cama.<br>Hoje a turma vai num futebol society e tudo bem.<br>Se o dia fora de chuva, a atração era a corrida de palitos de sorvete aproveitando a enxurrada na guia. A festa era quando um concorrente se enroscava em qualquer pedra ou pedaço de papel e a gente ganhava a corrida. O duro para mim foi quando o meu Vicking Rompedor se enroscou no pneu de um carro e o dono chegou bem na hora que eu estava praticamente todo debaixo dele tentando salvar minha nave. Saí de mansinho e o velho ficou uns cinco minutos cismado, tentando descobrir o que eu estaria aprontando por ali. O pior que ele era conhecido e toda vez que a gente se encontrava ficava aquele mútuo ar de desconfiança. Ele porque não sabia o que eu tinha feito e eu porque sabia o que ele poderia fazer.<br>Com a vinda da luz, a velha brincadeira de pegador acusado ficou mais constante. Na nossa versão, a gente jogava uma lata amassada para bem longe e todos corriam para se esconder enquanto que o pobre coitado que tinha que nos achar pegava a lata e colocava perto do poste onde era o piques. Nessa brincadeira nós pulávamos muros, invadíamos jardins, nos escondíamos atrás de carros até conseguirmos ludibriar o adversário e nos salvar, batendo no piques.<br>Hoje ainda falamos em paint ball…<br>Quando tinha as 1000 milhas de Interlagos, fazíamos nossa versão com os 10.000 metros de bicicleta, dando voltas e voltas no quarteirão. A regra era simples, ouvíamos a Panamericana noite a dentro, com a narração do Velho Barão Fititipaldi, e os repórteres espalhados em todo o circuito dizendo se o piloto tinha passado por ali ou não, Aluane Neto, Reali Jr, Otavio Muniz, Cláudio Carsughi, e outros e no dia seguinte, tão logo terminava a corrida, íamos para a rua. Quem tinha bicicleta corria, quem não tinha era o narrador ou repórter, cada um em uma esquina do quarteirão. Eu, geralmente era um repórter, pois minha bicicleta nunca saia dos boxes pois o chefe da minha equipe não deixava porque na segunda eu tinha que fazer entregas com ela e não podia ir com a bicicleta arrebentada. <br>Hoje qualquer circuito de kart resolve o problema.<br>O chato mesmo era brincar com as menininhas da turma que inventavam cada coisa.<br>Era um tal de lenço atrás, passa anel, pular corda e o mais escabroso de todos era aquele que a gente pegava uma bola, jogava na parede e começava: ordem, sem lugar, sem rir… sem, ah, para com isso.<br>O único consolo nessas brincadeiras era a do Passa Anel, minha mão sempre se demorava mais quando eu passava na mão dela. E nem todos sabiam porque eu demorava mais naquela mão, mas sabiam que o anel nunca iria estar ali, porque ía ser duro para mim vê-la esfregando a mão na mão de todos.<br>Mas meu time de futebol era o maior do mundo. Tinha jogadores de muitas nacionalidades e nunca tive preconceito de cor, tamanho ou origem.<br>O meu goleiro era o Yashin, pesado, todo de preto como se tivesse envolvido com fita adesiva preta. Aliás, era disso mesmo que ele era revestido. O reserva era mais modesto, chamava Luminar.<br>Tinha dois beques famosos, o Bobby Moore e o Jack Chalton. Meu ataque era arrasador, com o Del Sol na ponta direita, o Uwe Seller no centro e o Gigi Riva na esquerda. O meio de campo com o Giani Rivera o Overath. Depois vieram o Pedro Rocha, o Bobby Chalton e o Backenbauer.<br>Às vezes íamos até a 25 de março ver se encontrávamos nas lojas de armarinhos algum jogador que servisse. Às vezes, um relojoeiro amigo nos dava tampas de relógios que faziam cada gol de cobertura que deixaria qualquer Pele, Ronaldinho ou Rogério Ceni com inveja.<br>Primeiro nossos campos eram no chão. Na mesa da sala ou da cozinha tinha aquela emenda no meio do campo que enchia as paciências, até que um dia descobrimos que a metade de uma mesa de ping pong era um campo ideal. Assim, na mesma época do Palmeiras, tínhamos nosso Jardim Suspenso.<br>Meu time não era imbatível, mas era um esquadrão. E como todo esquadrão que se preze tem registrado em sua historia, grandes tragédias.<br>A primeira tragédia ocorreu quando num ímpeto de marcar um gol sensacional imprimi força maior e o meu Uwe Seller, um puro e ariano vidro de relógio, não uma simples cobertura de plástico, mas uma pura tampa de relógio que despencou mesa abaixo e rachou ao cair ao chão. Como bom atleta, foi preservado e só entrando em jogos especiais. Mas ele não resistiu, pois num descuidado aperto, fiquei com as duas partes no meio do campo, numa verdadeira fratura exposta.<br>A segunda, a maior e praticamente a que me desmotivou a continuar foi o seqüestro e prisão do Beckenbauer.<br>Um vigoroso botão de capa, daquelas de gabardine, sólido na pancada, suficientemente liso para alcançar qualquer bola em qualquer ponto do campo; firme nos chutes diretos e maleável nos chutes por alto, mas que, infelizmente confesso, não fora adquirido de maneira, digamos, mais ou menos, legal.<br>Assim, num dia, fatídico dia, quando tirava um duelo com um primo lá em casa, ele foi seqüestrado, surrupiado, desapropriado, na minha frente, na frente de todos.<br>É que minha mãe (em triste hora) reconheceu no meu Beckenbauer aquele botão da sua capa que julgava ter perdido. E, desprezando todas as regras futebolísticas, passando por cima de mim, do meu time, do juiz, levou embora aquela preciosidade. <br>Triste era ver o meu sofrido meio campo, preso, amarrado, jogado à vala comum junto aos outros botões, exposto às intempéries, todas as vezes que minha mãe usava a famigerada capa.<br>Coloquei de novo o Pedro Rocha insisti um pouco mais com o Rivera, mas eu nunca mais senti o mesmo que sentia antes.<br>Hoje, dentro da antiga caixa do Radio Spica, empoeirado e perdido em qualquer canto do armário embutido, está o velho Racing Club, o mais legendário time de botão do mundo, inclusive os restos vidrais do Uwe Seller. Só não está o Beckenbauer, que junto com a capa e nos resíduos do tempo, deve ter se perdido, anônimo e largado, sem que ninguém soubesse e lhe desse o seu verdadeiro valor.<br><br>e-mail do autor: [email protected]