Será que somos do tempo do Arco da Velha?

Aos poucos, fomos superando as dificuldades que iam surgindo no transcorrer da nova vida com a nossa chegada a Sampa, na década de 50. Começam as histórias como essa, assim que aportamos lá no Bairro do Tatuapé; a família Oliveira. Papai alugou uma casa em uma vila (as vilas na época chamavam-se cortiço). Serviço é o que não faltava, até para nós que ainda éramos criança, de vez em quando a vizinha pedia a mim e ao meu irmão para entregar roupas para uma família (ela lavava e passava) que ficava um pouco longe, e ganhávamos lá uns trocados.

Papai começou a trabalhar na Vigor como guarda-livros, a mamãe como costureira em uma malharia e meu irmão mais velho, Antonio Carlos (Tota), como office-boy no Centro de Sampa. O Plínio vivia com a vovó, devido a um problema que tinha no braço tendo que ir ao Hospital das Clínicas, levado pela tia Nilza a cada quinze dias. O que a família ganhava era para alimentação e roupas, vivendo sem luxo, sendo o único passeio às visitas aos familiares que moravam em Sampa e nas férias a vinda aqui para o interior.

Na parte de alimentação, contávamos com a ajuda do meu tio que administrava a fazenda de seus pais, enviando a cada três meses um saco de arroz. Escondido no meio do arroz, vinha feijão, café e fubá. Mandava também uma lata de banha com um pernil de porco dentro (era o meio de conservar a carne). A alimentação básica do dia a dia era arroz, feijão e a mistura quase sempre de uma salada, ovos ou omelete, linguiça e a famosa lata de sardinha Coqueiro. Com o fubá fazia se a polenta que o papai dizia que era para dar sustância, e com a farinha de trigo fazia o bolinho de arroz. Certa época o titio enviou um saco de batatas; a mamãe como é criativa fez o seguinte cardápio do mês: batata frita, salada de batata com sardinha Coqueiro, purê de batata e carne de panela com batata. Essa carne de panela era igual à bacalhoada: tinha mais batata do que carne. No domingo, ao invés da macarronada, passou a ter nhoque de batatas. Vocês sabem como é criança, tudo o que vê quer comer, mas a situação não dava e a vontade virava lombriga, que era curada com alho. Colocava-se o alho em um copo com água, deixava-se de um dia para outro, tomando no dia seguinte essa água milagrosa, economizando a compra do Licor de Cacau Xavier, apesar de ser barato (nunca falhou).

A minha prima, a Tute, preparou o tal alho para a filha tomar no dia seguinte. O meu primo acordou e foi até a cozinha tomar água, e tomou a água sem saber. Dias depois, confidenciou a esposa que não sabia o que estava acontecendo; lombrigas Tute você acredita? E a surpresa foi: “Ah então foi você quem tomou a água”, risos. Para a dor de garganta, usava-se um pano embevecido com álcool enrolado na garganta. A tosse era curada com gemada, onde a mamãe acrescentava conhaque de alcatrão São João da Barra (comprava-se uma dose no bar do Sr. Antonio). Curava até resfriado. Acredito que essa gemada com conhaque, se usada hoje em dia, curaria até esse “tar” de H1N1.

O Antoninho chama esses dois “lambisgôia” para tomarem a "Emulsão Scott" (óleo de fígado de bacalhau) e não quero choradeira. Gente, acreditem, sobrevivi e estou aqui tomando o tempo precioso de vocês que tem mais o que fazer ao invés de ficarem lendo os meus garranchos – Um forte abraço a todos com muito carinho.