Os que tiverem visto a telenovela "Nina", umas das primeiras exibidas ao horário das 22h pela Rede Globo, e a única cuja trama terminava com mais finais tristes do que felizes, deve recordar-se de uma família a qual pertenciam as donas do colégio para "moças de fino trato" em que trabalhava Nina, personagem vivida por Regina Duarte.
A família Galba Mariano era baseada em uma das famílias paulistanas dos barões do café, quando o "ouro verde" e sua aromática infusão formavam o pilar da economia monocultural brasileira dos azos que transcorriam. A família Torres Galba chegou a então Província de São Paulo, às primícias do século XIX, ainda vice-reino unido ao de Portugal e Algarves.
Desde a chegada às terras do planalto paulista, a família com raízes ibéricas de ambos os lados do Tejo luso/ Tejo hispânico se notabilizou por posições antípodas às da que Benedito Rui Barbosa criou em Nina. Liberais apoiaram a fundação do primeiro jornal liberal de São Paulo, O Ypiranga, sob os auspícios de Tavares Bastos, líder do partido liberal no primeiro Império.
Quando Francisco de Mello Palheta trouxe as mudas do arbusto etíope, cuja infusão já era moda em todo o Oriente Médio, Império Turco-Otomano, Europa e ganhava as mesas e hábitos americanos, os Torres-Galba logo se lançaram ao cultivo cafeeiro.
Foi uma das primeiras famílias a adquirir glebas no que viria a ser a Avenida Paulista, sob o idealismo do uruguaio Joaquín Eugénio de Lima, que jamais abandonou o país, tendo seu nome aportuguesado para Joaquim Eugênio. Logo surge o palacete, em estilo neoclássico francês, contrastando formosamente com o de outras mansões próximas, de estilo clássico, vitoriano ou barroco. Sempre inovadora, a família mandou Austregésilo Torres-Galba estudar nos Estados Unidos, ao invés de ganhar notoriedade universitária com cursos de países europeus.
Austregésilo trouxe para o Brasil mudas de uma espécie de magnólia até então inexistente em terras sul-americanas, a "Magnolia poasona", que logo se aclimatou. Uma das mudas da frondosa árvore nativa da terra setentrional norte-americana foi plantada à casa da família. Com a crise da bolsa de valores de Nova Iorque, a família sofreu grandes perdas. Os filhos de Austregésilo se dispersaram por Europa e Estados Unidos, onde ainda vivem muitos de seus descendentes com o nome anglicizado para Tour-Galb.
O palacete foi vitimado pela pátina do tempo e da falta de cuidados, arruinando-se pouco a pouco. Testemunha muda, a magnólia continuava a florescer suas flores alvas e de pétalas sedosas, que nós, que morávamos pelas proximidades, torcíamos para que caíssem à rua, para podermos levá-las para casa, onde duravam alguns dias em um copo d'água. O aroma impregnava a casa por horas, até esmaecer. Entre a criançada, a casa, com os resquícios de um pequeno incêndio nos anos 50 do passado século XX, gozava da fama de mal-assombrada. Fama reforçada pela presença ocasional dos caseiros, que dormiam a uma edícula aos fundos da edificação.
Jamais cumprimentavam quem quer que fosse, e só eram lobrigados ao lusco-fusco do entardecer. Muitos anos depois, vim a tomar ciência de que, no incêndio, uma das faxineiras da casa ficou seriamente queimada. "São invasores". "São descendentes de escravos dos antigos donos, barões do café". "São fantasmas, por isso não falam". As estórias, com "e", pululavam e povoavam as mentes férteis e fantasiosas dos que viviam sua meninice às proximidades da casa, como eu.
Em 1976, como tantas outras reminiscências arquitetônicas do ecletismo que marcou a cidade de São Paulo, a mansão dos Torres-Galba foi demolida, cedendo passo a um estacionamento. Emudecida, ou talvez clamando com suas folhas, inaudivelmente para nós, a magnólia permanecia lá. Já não florescia, privada de espaço para as raízes, e de cuidados para vicejar.
Em 1986, edificou-se o prédio Santa Catarina. A inauguração contou com bênção de um dos padres franciscanos que se revezam para as missas dominicais à capela Santa Catarina, inaugurada em 1920, aos fundos do Hospital Santa Catarina. O padre em questão, Monsenhor Zózimo, profundo conhecedor da numerologia pitagórica, recomendou que o número fosse 287, pois o número da casa, 283, teria por somatória o fatídico 13 (2 + 8 + 3). O edifício ostenta ambas as numerações, mas o 283 é menor, embaixo. Reparem quando passarem em frente.
A magnólia já não mais nos brinda, com suas flores nem seu tronco ressequido por falta de cuidados. Acrescento três curiosidades para por termo a esta história. Primeira, há uma galeria de arte em Miami que tem um pequeno barzinho ao ar livre, sob a sombra de uma enorme magnólia. O nome do bar? The tour of Galb. O primeiro dono era descendente dos Torres-Galba. Segunda curiosidade, a família Torres-Galba não perdia um culto dominical à capela Santa Catarina, desde sua fundação em 1920. Como perguntariam nossos primos mineiros, lídimos descendentes dos bandeirantes, quase todos paulistas: "E a terceira curiosidade, sô?". Ao que eu respondo que direi em uma próxima estória, caso gostem desta. Até lá? Até lá, continuem tendo curiosidade, “uai”.