Nós do Itaim Bibi viemos do Bixiga

Hoje, pela manhã do dia 31/08/06, no CIEE-Itaim Bibi, assisti a brilhante palestra do prof. de Geografia Humana, Francisco Capuano Scarlato, dentro do Curso de História de São Paulo, com o tema – As Metamorfoses do Bexiga, entre a autofagia e a renovação.

Entre afirmações, relações, interpretações e emocionantes lembranças não só do Bexiga (Bixiga, Bela Vista), ouvimos embasbacados e atentos a uma firme e precisa narração de fatos histórico-geográficos não só dessa região, como também das metamorfoses que São Paulo já passou e esta passando.

Pois é, cada dia me sinto mais orgulhoso da minha origem negra, do local onde nasci, a Vila Itororó, e do bairro aonde moro, Itaim Bibi, já há mais de 58 anos.

É que nasci no que ele, o professor palestrante, chamou de Bexiga Extendido. Foi na rua Martiniano de Carvalho, na Vila Itororó, hoje Patrimônio Histórico. Isso mesmo, eu nasci num dos cômodos do palacete da Vila Itotoró e fui registrado no Cartório da Bela Vista, que por sinal também me casei, muitos anos depois.

A Vila Itororó por estar construída numa encosta, uma parte de um morro, o chamado Vale do Itororó, tem a sua entrada principal no alto, ou seja, pela Martiniano de Carvalho. Depois seguem-se inúmeras casas e cômodos de aluguel, tudo ladeando uma enorme escadaria. Isso mesmo, ladeira abaixo. Terminava ou termina numa nascente d’água* onde sabiamente o português, na época o dono do prédio, construiu uma piscina para uso particular dos seus inquilinos e convidados. Talvez tenha sido na cidade de São Paulo, o primeiro sistema de condomínio residencial e com área de lazer. Homem de visão.

A minha família só veio para a Chácara do Itahym, no final do ano de 1947, portanto quando eu já tinha quase dois anos. Sou de 28 de fevereiro de 1946.

O meu pai, Sr. Orestes Bernardo de Pádua, conheceu a minha mãe, Dona Benedita Ferreira de Pádua, na rua Direita. Na época era o local onde toda a comunidade negra ia passear nas tardes e início da noite. Todos elegantemente vestidos.

Na verdade, quem morava na rua Martiniano de Carvalho era a minha mãe e a minha avó dona Francisca Ferreira, cozinheira de forno e fogão, nas famílias nobres da Avenida Paulista.

Eles, os meus pais, se casaram na Igreja da Nossa Senhora do Carmo em 1943. Moraram na Vila Itororó, na casa ou cômodos alugados pela minha avó até se mudarem para o Itahym, cerca de 4 anos depois.

A família do meu pai morava do outro lado da Paulista e mais próximo da Chácara do Itahym. Numa travessa da Brigadeiro Luis Antônio, na Vila dos Operários da Fábrica de Tecidos Calfat. Mas ele freqüentava o Bixiga, ia no Cordão do Lavapés e era sócio do Elite, um clube formado só por negros, todos de fino trato, desde operários à intelectuais.

Alguém perguntará e dirá: – Mas a Vila Itororó esta na Liberdade ou na Bela Vista? E que tudo isso tem com o Itaim Bibi? A rua Martiniano de Carvalho esta do outro lado da Av. Brigadeiro Luiz Antônio.

Eu, Helcias, sempre afirmei que nasci no Bixiga, portanto sou Bixiguense, ou será Bexiguento como afirmou o palestrante prof. Francisco Capuano, nascido no Bexiga.

Hoje tive a confirmação dessa minha tese de origem e de nascimento. Sou do Bixiga, portanto tenho status.

Segundo o palestrante, a rua Martiniano de Carvalho geo-históricamente pertence ao chamado Bexiga Extendido, ultrapassando o limite distrital do bairro da Bela Vista.

Isso mesmo professor, a história e todas as outras ciências ou disciplinas são construídas com as nossas memórias emocionais ou não emocionais. E o espaço ocupado é a acumulação de tempos desiguais; espaços de tempos lentos e espaços de tempos velozes, segundo o que afirmava o Geógrafo Dr. Milton Santos. Emérito professor e um dos primeiros negros no quadro de docentes da USP. Se não foi o primeiro doutor. Gostei.

E o Itaim Bibi? Ainda como entra nisso?

É que o Itaim Bibi já há alguns anos, honrosamente sedia, e em 4 endereços distribuídos pela rua Tabapuã, o CIEE, Centro de Integração Empresa-Escola.

Além disso, e o mais importante, é que o nosso bairro, a Chácara do Itahym (Sítio do Itaí), recebeu desde o início do século XX, inúmeras famílias de emigrantes italianos, de portugueses e de alguns negros, oriundos também do Bexiga, nas décadas de 20,30 e 40. Foram expulsas ou nem puderam se estabelecer em outro local, pelo processo de encarecimento dos aluguéis dos cômodos e casas na região da Bela Vista e de São Paulo, escolhendo entre outros locais, as regiões de várzea como a do Itahy.

Foi então que esses casarões ou casas mais centrais, com inúmeros cômodos tornam-se os chamados cortiços. Esses prédios construídos pelos capomastres em áreas mais altas, habitadas de início pelos próprios proprietários e seus familiares e alugados à outras famílias de emigrantes, amigos menos abastados, e à muitos negros, passam a receber mais gente. Daí em diante um número muito maior de famílias, de 10 a 15, acolhendo uma quantidade bem maior de pessoas num espaço aonde anteriormente habitavam 3, 4 ou 5 famílias espalhadas.

Cai a qualidade de vida, de convivência, de saneamento e aumenta-se em muito a arrecadação final do aluguel. Onde se ganhava X, passou-se a retirar 3 ou 4 vezes X mais.

É o adensamento humano negando a qualidade de vida. Isso sem contar que anos depois as casas foram se degradando ou foram derrubadas e no seu lugar erguem-se prédios residenciais e comerciais.

Depois, afirmou o professor Capuano, veio o Elevado, aquele monstrengo intermediado por baixa e veloz avenida, dividindo o Bixiga, como o muro de Berlim dividiu a cidade alemã.

Também afirmou – quero assim entender: "… deixou-se de lado a relação intra e extra muros entre os vizinhos; perdeu-se em qualidade de vida".

Acho que foi por isso que o meu pai resolveu sair do Bixiga. E bem antes.

Vem para o Itahym, compra uma casinha baixa, com muro, portão e corredor lateral. Foi financiada pelo IAPB, num terreno de 6x30m, na travessa do Porto. Retorna-se à convivência harmônica, a troca de coisas pelos muros vizinhos, as mesas e cadeiras nas calçadas, as conversas no final das tardes e festas nas ruas, ainda de terra.

Mas isso durou até o início da década de 70, quando a região do Itaim Bibi passa a ter grandes avenidas, cobrindo córregos e sendo invadido por uma agressiva verticalização. Isso pode ser chamado de progresso?

Lembro que ele, o meu pai, dizia: "…aí então muito da negrada do Saracura se mudou para outros cômodos, lá na Barra Funda. Outros compraram terrenos na Freguesia do Ó na Penha. Eu não… vim para o Itahym.”

Essa comunidade negra que ele sabiamente se refere, era e é provavelmente resíduo de um quilombo formado como refúgio de um mercado de escravos existente na época, onde hoje estaria em um lado da Praça da Bandeiras, no sentido Bexiga. Se não estamos enganados, não é professor Capuano?

Aí começa a minha saga de apaixonado Itahyense. Isso mesmo com o H antes do Y.

E a Casa Bandeirista? Ouvi falar que vão mesmo construir dois espigões, dando frente à Av. nova Brig. Faria Lima.

Queremos a reconstrução da CASA SEDE, de frente para a rua Iguatemi. Isso mesmo, aquela que foi criminosamente derrubada, destruída. Vamos manter o que resta das árvores frutíferas e da Mata Atlântica. Pessoal, colaborem com o GMIB. Solidariedade.

*Acho que por ter nascido a beira de uma nascente é que me tornei biólogo especialista em qualidade das águas. Que bom.

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