A enchente

Era o início do verão de 1966. O céu permanecia ameaçador, com nuvens nebulosas escuras rondando os céus da cidade. Aqui do alto, na Rua Barão de Iguape, tinha-se uma visão privilegiada de toda a várzea do Carmo. E naquele momento, a chuva veio com força malvada com trovoadas e raios, atirando esguichos d'água contra as árvores que estavam vergadas e retorcidas com a fúria do vendaval. Um rádio no bar da Rua do Glicério a meteorologia anunciava que tinha previsto uma grande avalanche de água naquele dia. Infelizmente, mais uma vez, a várzea do Glicério estava sujeita a grandes inundações. <br><br>As janelas das residências estavam todas iluminadas por causa do escuro da tarde, fazendo as luzes das ruas se acenderem antes, apesar de ser apenas cinco horas da tarde. E continuava a chover incessantemente em toda cidade. Nas ruas da baixada do Glicério já podia perceber a água que refluía das bocas de lobo subir lentamente já alcançando a beirada das calçadas. Mais adiante, na Avenida do Estado, próximo à loja Mesbla, um ônibus permanecia com o motor afogado porque o nível da água tinha atingido mais de quarenta centímetros acima do solo. Ao lado, um táxi estava preso no baixio alagado da Rua Leopoldo Migues. Na esquina da Avenida Engenheiro Passos com a Rua Justo Azambuja, outra boca de lobo com a tampa soerguida pela força da enxurrada borbulhava em roda moinho na superfície de água barrentas e sujas que vinham do Rio Tamanduateí que agora já tinha transbordado nas duas margens.<br><br>As casas de porões baixos haviam sido inundadas pela água que penetravam aos borbotões pelas grades de ferro e decantavam detritos e lama através das ramagens encharcadas para dentro das residências. Dentro do porão, um colchão boiava quase até a altura do teto. Do outro lado da rua, no prédio vizinho ao 13 da Rua Demóstenes Batista Figueira Marques do conjunto do IAPI, uma mulher grisalha levantou a vidraça de guilhotina e no meio da janela acenou com a mão levantada para a vizinha apontando para o jardim que agora estava sendo engolido pela água suja e barrenta que escorria dos bueiros e avançava pela calçada. Um homem com as calças arregaçadas até a altura dos joelhos chapinhava na imundície lamacenta tentando atravessar o jardim inundado, sobre uma cascata d'água que descia com violência do céu.<br><br>Naquele instante faltou luz. As águas tinham invadido as instalações da Eletropaulo nas confluências da Avenida do Estado com a Leopoldo Migues; a sala de jantar se tornou umbrosa, apenas alumiada por uma lamparina de azeite colocada sobre a mesa de carvalho. Havia ali uma pessoa doente. Estava tentando se recuperar parcialmente de um derrame que o tinha acometido há dois meses atrás; fazia fisioterapia diariamente, esmagando com a mão esquerda uma bolinha de borracha, que a fisioterapeuta tinha lhe recomendado. Ele era robusto, calvo, rosto pálido. Devia ter sido corado na mocidade, mas a doença o desbotara e isso era agravado pela barba branca por fazer. A esposa tinha-lhe preparado o único prato em uma pequena travessa, uma sopa rala que o médico lhe havia recomendado. <br><br>Diante de tais circunstâncias, havia naquela casa a preocupação de terem que chamar o médico em caso de emergência. Como fazê-lo? A rua estava totalmente alagada e a ambulância jamais iria conseguir chegar até lá. Não havia telefone em casa. Caso fosse necessário, tinha que se comunicar com a vizinha do prédio em frente. Ao menos chamariam o corpo de bombeiros para retirar o paciente de casa. Enquanto isso, o céu de nuvens baixas jorrava água sem esperança de trégua. Os cimentados das calçadas estavam totalmente encobertos pela água e nas sarjetas da Rua Luiz Gama, a enxurrada levava de roldão toda a imundície do Largo do Cambuci. No meio da Rua Justo Azambuja, próximo ao albergue noturno, um homem de impermeável cor de laranja e a cabeça coberta por um capuz parecia um general em plena batalha contra as correntezas das águas.<br><br>Na bifurcação da Avenida Engenheiro Passos com a Rua Demóstenes Batista Figueira Marques o campo de futebol ali existente tinha desaparecido no meio das águas. Na distância, ouvia-se o troar das sirenes do corpo de bombeiros que descia a Rua do Lavapés em direção ao Largo do Cambuci. De repente, ouviu-se um estrondo ao longo do aguaceiro. As águas tinham invadido os sistemas de distribuição de energia elétrica e houve um curto circuito e toda a região ficou sem energia. No meio da rua, atrás do albergue noturno, duas poltronas estofadas e uma mesa de centro amontoavam-se enroscadas em um poste de iluminação. <br><br>Para os lados do mercadão da Rua Cantareira, alguns homens gritavam, gesticulavam, riam, movendo-se com dificuldade na inundação. As sarjetas tinham desaparecido e a água já começava alagar os passeios, infiltrando-se por debaixo das portas de aço dos armazéns dos atacadistas da Rua Santa Rosa. O Tamanduateí saltara do conduto do leito e agora estava invadindo a Rua do Gasômetro. Os armazéns enfileiravam-se nas ruas desertas e silentes. As portas onduladas dos armazéns permaneciam fechadas. Um homem estava no meio da rua com água pela canela e tentava aparar com as mãos uns caixotes gradeados de galinhas para não morrerem afogadas. Apesar das dificuldades, vez ou outra, partia um caminhão carregado de mercadorias que tinham sido salvas da enchente. Saia vagarosamente, afundava as rodas no baixio da rua, oscilava perigosamente como se fosse tombar. Quando conseguia se safar, era uma gritaria só. <br><br>A uns duzentos metros da porta principal do mercado, havia um beco apenas iluminado por um globo elétrico suspenso no poste da rua a gotejar sobre a inundação a sua claridade mortiça. E a chuva teimosamente persistia sobre a várzea do Glicério. A Avenida do Estado estava totalmente submersa e na enxurrada via-se latas vazias, que rolavam na força da correnteza. Aquele cenário se assemelhava nos detalhes ao Monte Ararat, um maciço montanhoso no sul da Armênia como o ancoradouro da Arca de Noé, na descrição bíblica e nas narrações pós-diluvianas dos manuscritos como era o mundo antes do dilúvio.<br><br>Finalmente, depois de três dias de copiosa chuva, veio à estiagem. Nas ruas a calha barrenta amontoava-se nas calçadas e uma camada de lodo mole, escorregadia, ainda cobria tanto a zona do asfalto como as do cimento. No meio do lamaçal que se formara, permaneciam encalhados restos de roupas, utensílios domésticos, colchões, cadeiras. <br><br>Naquele momento, o homem tomou o bonde no Largo do Cambuci. Seguiu pela Rua do Lavapés, entrou na Rua da Gloria e o bonde prosseguiu a sua marcha lenta até chegar ao Largo João Mendes e depois de contornar o balão do fórum ele desceu. Estava efetivamente agora já bem distante do que tinha visto, do alagado da várzea do Glicério naquele verão de 1966. <br><br><br>E-mail: [email protected]