Biblioteca Municipal da Vila Mariana

O segundo semestre de 1964 foi particularmente sombrio para nossa família com a inestimável perda de nossa mamãe Zita. Como já relatei na crônica, "Tios mais queridos" em 08 de abril de 2010, fui acolhido pelos tios Dalva e Renato que ainda não tinham sido abençoados com seus três filhos, Cecília, Adriano e Sônia. Como minha tia trabalhava na Biblioteca, levava o sobrinho de dez anos para acompanhá-la e aproveitar toda a cultura disponível daquele local.

Acabei achando o que algumas professoras odiavam, repudiavam e criticavam, os famigerados "gibis". Pensei com meus botões, se estão aqui dentro de uma biblioteca devem ter algum valor. Não havia muita variedade, quase que só aqueles da Walt Disney, mas deu para passar o tempo e aliviar os pensamentos. Já tinha um gosto mais diferenciado que ia além de Donald, Tio Patinhas e Mickey, gostava de Tarzan, Fantasma e Mandrake. Tenho comigo que o apelo de histórias com cenários em vários países ficavam mais misteriosas e interessantes. Tarzan e Fantasma eram da África, mas o segundo podia estar participando de uma aventura em qualquer parte do mundo. Tarzan falava em línguas desconhecidas com os aborígenes e com animais como, "Krigah, bandôlo tarmangâni".

Nunca tive idéia se existia significado. Gravei os termos mentalmente porque era muito difícil de ler e precisava ficar exercitando pela repetição.

Fantasma tinha o mistério de viver mais de 300 anos o que foi sendo esclarecido com o tempo, eram várias gerações de Fantasmas. O Mandrake, com seu fiel escudeiro Lothar, era um ilusionista e detetive. Ficava entusiasmado com os quadrinhos em que Mandrake fazia um gesto e aparecia na legenda, um truque hipnótico ou de sugestão, e isso me prendia a atenção, pois daí ele podia dominar vários bandidos armados e prendê-los. Outra mania era ler bolsilivros com histórias de cowboys ou faroeste. O melhor era o Tex.

Surgiu em pouco tempo duas séries de espionagem que me envolveram, o espião K. O. Durban (Keith Oliver) e a coleção ZZ7 de Giselle Montfort. Nas férias a pedida era as famosas histórias das Seleções do Readers Digest que lia na casa dos primos.

Meu pai sempre atento aos nossos hábitos comprou uma mastodôntica coleção de um Dicionário de Língua Portuguesa do autor Caldas Aulete e sentenciou:
– "Quem souber 90% de tudo o que aí está, vai ter tudo comigo".
Minha grande sorte veio quase como um brinde junto com a coleção, cinco livros de biografias de vultos importantes da humanidade. Cai em cima daqueles livros e tentei descobrir porque foram tão bem sucedidos em suas vidas. Aprendi sobre George Washington, Ferdinand de Lesseps, Louis Pasteur, Henri Schliemann, Thomas Edison, Ghandi e Marconi entre muitos outros. Eram cinco biografias por volume, sendo cinco volumes. Meu sábio pai sabia atuar nas mudanças e substituir nossos hábitos com um pouco de pressão e uma grande habilidade. Na sua percepção, ele dizia que aquele que dominar absolutamente a língua pátria, poderia almejar qualquer posição importante na vida profissional. Homenageando meu pai e parodiando o nome da conhecida série de TV norte-americana, "Papai sabe tudo". Ou move montanhas, para que os filhos sejam bem-sucedidos na vida.

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