Bake bila, etorri zen San Paul. Um basco paulistano

Corriam os meados da década de 30 do passado século. Após a sangrenta contenda, prelúdio triste da II Guerra Mundial, posto que esquerdistas e direitistas de inúmeras nações pelejaram em solo de Espanha, finda-se a Guerra Civil. O senhor Arméndiz, acompanhando a família, veio a São Paulo em busca de uma coisa que em sua amada Euskadi – país basco – tardaria décadas a chegar: paz.

Seguindo as pegadas de muitos irmãos peninsulares, o senhor Arméndiz, tendo construído um pequeno carrinho com caixotes que selecionou dos engradados que se dispensavam ao mercado municipal – o conhecido "Mercadão" – saiu catando ferro velho. Uma versão vetusta dos hoje conhecidos recicladores de latas de alumínio, o senhor Arméndiz passou a vender todos os restos metálicos que podia juntar para indústrias que necessitavam de ferro, cobre, latão, estanho.

Metais menos nobres, não obstante igualmente valiosos para um nascente setor secundário de um país ainda atrelado ao golilha de um passado agropastoril. Com a fundação da Siderúrgica Nacional, com capital estadunidense, que pagaríamos doando nosso quinhão da derrotada Alemanha nazista aos vizinhos setentrionais, o trabalho do senhor Arméndiz se tornou ainda mais requisitado, posto que surgia um novo mercado metalúrgico, o do aço.

Casou-se com uma argentina igualmente descendente da nação dos etarras (bascos) e euskaldunas (escolas bascas), doña Mariana. Seus filhos, paulistanos da gema, seguiram outros caminhos profissionais. Os elos com a distante Euskadi, no entanto, mantiveram as raízes por mais uma geração: os netos fundaram o centro de tradições bascas de São Paulo. O euskera – língua basca – se perdeu, mas não o apreço pela nação dos avós.

Dia 30 de abril, os bascos, seus descendentes espalhados pelo mundo afora, e todos os que prezam esta pequena mas cativante nação dividida entre França e Espanha, comemoram o dia de Euskadi. O senhor Arméndiz faleceu em 1987 e sempre dizia: “Etorri zen San Paul, bake bila: vim a São Paulo, em busca de paz”. Seu ferro-velho se chamava Sendoa – Firme. Bem escolhido: o ferro é sempre firme. Tanto quanto o senhor Arméndiz. Tanto quanto Euskadi. Tanto quanto os que buscam a paz em um mundo tão dilapidado pelos conflitos. Nós também, senhor Arméndiz, bake bila.

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