Presente professora

José Aureliano Oliveira, era a professora dona Malvina do Colégio Visconde Congonhas do Campo fazendo a chamada, no qual nós alunos respondíamos: presente. Era grandalhona, meio desengonçada, muito enérgica quanto à disciplina. Qualquer gracinha que atrapalhasse sua explicação, lá “vinha, ela”; cravava suas unhas como um alicate na orelha do aluno e torcia. Você lembrava dela o dia todo.

Quando ela encontrava uma régua em cima de uma carteira, aí era pior. A reguada era data com a quina na sua cabeça. O ovelha negra da sala, ao receber o castigo, apanhou um taco que encontrava se solto no chão, arremessando sobre ela. Foi espatifar no quadro negro, por pouco não acertando a cabeça dela. Voltou em direção do aluno em uma fúria danada. O aluno encostou a cabeça na carteira se protegendo com as mãos, mas, acredito que ela deva ter contado até dez, fez meia volta e voltou para a sua mesa. Encostou a cabeça na mesa e chorou, chorou até soluçar. A servente trouxe um copo de água e levou o aluno para Diretoria. Nunca mais vimos a cara dele.

No terceiro ano primário me transferi para a escola Erasmo Braga na Rua Maria Eugenia, inaugurada naquele ano, por ficar mais perto da minha casa. A Professora era a Dona Anália. Essa já era mais miudinha, uma bondade de pessoa. Terminando a explicação da matéria, sempre perguntava se alguém tinha alguma dúvida. Insistia e percebendo pela cara de algum aluno com dúvidas, mas com vergonha de falar, repetia tudo novamente.

Chamava o aluno no quadro negro, enfim tirava todas as dúvidas. Sempre que terminava uma matéria tinha seus exercícios que nos deixaram mal-acostumados. Os três primeiros que terminassem os exercícios recebiam dela uma revistinha do Pato Donald. (após a correção evidentemente). Era um incentivo para a classe essa disputa, sendo considerada na escola a classe mais atenciosa e disciplinada. Gente, um dia tirei o terceiro lugar, o coração disparou e a felicidade foi lá em cima. Olha carreguei essa revistinha comigo o ano todo, não sabendo dizer quantas vezes eu li e reli a história.

Lembro até hoje da história que passava na Caixa Forte do Tio Patinhas. Resumindo, tratava-se de uma porção de toupeiras que cavando a sua casa abaixo da caixa forte, provocaram um enorme buraco, levando toda a fortuna do Patinhas para o fundo desse buraco, entrando em cena seus três sobrinhos para recuperar sua fortuna. Seu nome "Anália" ficou gravado em minha memória não só pela revista, mas na época foi lançado uma marchinha de carnaval pelo cantor Dorival Caymmi com o seguinte refrão:
"Eu vou prá Maracangalha Eu vou! Eu vou de uniforme branco Eu vou! Eu vou de chapéu de palha Eu vou! Eu vou convidar Anália Eu vou! Se Anália não quiser ir eu vou só.”

Já casado, eu sempre cantarolava essa marchinha em casa, e quando meus meninos por acaso me perguntavam:
– “Papai aonde o senhor vai?”
– “Eu vou prá maracamcalha eu vou…”
Eles riam a beça. Em viagens de carro quase sempre vinha a pergunta e todos cantavam a marchinha.

Na primeira série estudava no Ginásio Fernão Dias na Celso Garcia. Lá era o professor de Português "Sr. Massa" que pesava mais de cem quilos. Para chegar a sala de aula que ficava no final do pátio e subir 20 degraus de escada ele demorava uns 15 minutos. O algoz era o português "Joaquim" que aprontava todas. Fazendo a prova de português, com a mão esquerda fechada ele abria e dava uma espiada, fazendo isso claramente para o professor notar.
– “Joaquim poderia me dizer o que você tem na sua mão?”
– “Nada professor, é brincadeira aqui dos meninos”, e abanava a mão.
O professor foi até ele e exigiu que abrisse a mão, estando escrito "curioso". Uma semana sem vermos a cara do Quinzinho.

Mudei para o curso técnico matriculando-me no colégio Duarte de Barros que ficava na Rua Jacirandi. O professor das minhas desavenças era o de português, Sr. Any. Um detalhe; já não faziam chamadas pelo nome, mas por número. Veja só; José Augusto e José Aureliano. Pela ordem alfabética na lista de chamada ele vinha antes, sobrando para mim o número 24 por três anos seguidos, sendo que, em um ano saiu um aluno no que fiquei contente, mas entrou um outro, não teve jeito. Apesar que, após um mês de aula a turma já não pegava mais pesado, mas o professor Any quando chegava no meu número sempre tinha uma piadinha.

Gostava da leitura. A cada 15 dias todos com o livro na mão e iniciava a leitura. Tinha que ficar em pé com o livro na mão esquerda e a mão direita para trás. Apesar de já estar em Sampa há alguns anos ainda tinha um ligeiro sotaque "caipireis" que só ele notava e tirava um sarro. Larga do meu pé chulé. Ah! Professora Malvina, Professora Anália que saudades. Óh! Professor Any o teu nariz e tão grande que você já está sentindo o cheiro das flores da primavera do ano que vem Af! Se a Anália não quiser ir, eu vou só…

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