O hospital da Penha e os invasores espaciais

Bairro da Penha, verão de 1976. Tempos do Mercadão Municipal que virou Poupa Tempo, da loja Eletroradiobraz que virou Extra, da papelaria "A Estudantil da Rua Dr. João Ribeiro e da "Loja das Bagunças" da Av. Penha de França, atrás da Igrejinha do Largo São Francisco que, assim como a Estudantil, ainda permanece, imponente, no endereço original.

Na "Loja das Bagunças", meus pais compraram meu primeiro carrinho de brinquedo: O famoso Pé na tábua, um carrinho de fórmula 1 feito de plástico e que era movido pelo impulso de ar que recebia de um tipo de fole que se encaixava na parte de trás do brinquedo. Bastava pisar no fole e o bicho saia em disparada. Na papelaria "A Estudantil" comprávamos o material escolar que não encontrávamos no bazarzinho da simpática dona Hermínia que funcionava bem ao lado da escola: O Grupo Escolar Esther Frankel Sampaio onde eu estudava.

Os alunos das escolas públicas estaduais usavam avental branco com um mapa vermelho do estado de São Paulo estampado em um bolso enorme no lado esquerdo do peito. Naqueles tempos a escola pública era de respeito e nós, alunos, ficávamos em pé quando os professores ou o diretor entravam na sala de aula.

Eu, à época com 11 anos, levava uma típica vidinha de moleque dos anos 70: futebol no campinho de terra batida na travessinha da Rua Barra do Rio Grande, pião, bola de gude, taco, pipa nas férias de janeiro e julho, pega-pega e até queima (quando as meninas nos desafiavam, risos).

Este é um caso que me lembra o Hospital da Penha, que durante décadas, foi a opção de tratamento mais tradicional da região. No início, apesar de particular, o hospital possuía convênio para atendimento público (anos 70 e 80). Durante os anos 90 passou a atender exclusivamente como hospital particular. Fechou no início dos anos 2000, reabriu e hoje é administrado pelo Sociedade Beneficência Portuguesa. Eu e todos os meus irmãos nascemos lá.

O prédio na Rua Santo Afonso (ao lado da Igreja Velha da Penha) que durante tempos foi usado como consultório, hoje está para alugar. Pena, pois pela beleza arquitetônica deveria ser tombado. O outro prédio, na Rua Arnaldo Vallardi Portilho ainda não foi totalmente reativado, mas conserva incrivelmente o mesmo aspecto de décadas atrás.

Eu preferia brincar na rua como a maioria dos moleques, mas também assistia TV quando, nos dias em que minha mãe ia trabalhar, eu, com o meu irmão, éramos encarregados de tomar conta da casa e de nossa irmãzinha chorona e babona de apenas três anos de idade.

Bem, garoto que se preza não gosta de assistir novela e sim: Ultraman, Vingador do Espaço, Fantomas e qualquer outra tranqueira que tenha monstros no enredo.

Foi naquele verão que, apesar do ótimo desempenho escolar, bom relacionamento com vizinhos, amigos e até de tocar na banda da escola (que a gente chamava de fanfarra), o garoto que vos escreve passou a ter certos "pesadelos noturnos" nos quais a Terra era invadida por extraterrestres, os quais controlavam monstros gigantes que destruíam tudo que encontravam em seu caminho. Durante à noite, eu literalmente levantava e corria dormindo pela casa gritando e acordando todo mundo para que fugissem dos tais alienígenas.

Depois de cortar sem resultados a TV, meus pais, já preocupados com a situação, resolveram procurar um médico. O bom doutor me examinou, fez um montão de perguntas para ver se eu regulava bem das ideias e, depois de muito coçar a cabeça, resolveu me encaminhar para um exame neurológico, que consistia na extração, por meio de seringa com agulha, de líquido da medula espinhal (dói só de escrever isso!).

Naturalmente, meus pais tentaram-me tranquilizar (enganar) dizendo que era só uma "picadinha". Eu, malandramente, logo quis aproveitar a oportunidade para fazer uma chantagenzinha: concordei em fazer o exame desde que eles me comprassem o jogo de futebol de botão da seleção da Holanda (Para a sorte deles, ainda não existiam tablets nem smartphones, risos).

Lembro-me que o exame estava marcado para a manhã de um sábado e lá fomos nós para o hospital. No caminho, fiz minha mãe parar no pequeno bazar da japonesa que ficava no finalzinho da Rua Penha de França ao lado do mercado Saúde e quase no início da Avenida Cangaíba para mostrar o jogo de futebol de botão que eu queria ganhar.

Chegamos antes do horário e lá conhecemos uma jovem e simpática senhora que também aguardava o exame. Ela era loira, bonita, aparentava ter pouco menos de 40 anos e era muito comunicativa. Conversa vai, conversa vem e ninguém falava em outra coisa além do "bendito exame”.

Ela entraria antes de mim e havia outros pacientes que fariam o exame depois. Eu tinha saído de casa tranquilo, mas aos poucos fui ficando desesperado com tanto burburinho:
– “Fulano não sentiu nada, mas ciclana quase morreu.”
– “Ouvi falar que a agulha é pequena!”
– “Não, a agulha parece carga de caneta bic!"

Percebendo que eu estava de olhos arregalados e apavorado com os comentários dos outros pacientes, a jovem senhora e a minha mãe tentaram desconversar.
– “É muito tranquilo. Meu sobrinho que é pequenininho já fez e nem chorou.”
Disse a mulher com um sorriso nada convincente. A enfermeira então apareceu na sala e chamou a jovem senhora.

Acompanhada pela irmã e pela enfermeira, ela rumou para o fim do corredor meio escuro onde ficava a salinha do médico. Minha mãe então recomendou:
– “Fica quietinho que vai acabar logo e a gente vai pra casa.”
No entanto, a mulher não saia mais da sala do médico e eu, ali paralisado, não conseguia tirar os olhos daquele corredor escuro.

Depois de um tempão, vi que três vultos vinham caminhando. Era a jovem senhora, escorada de um lado pela irmã e do outro pela enfermeira. Ela, que tinha pele clarinha, estava vermelha como um pimentão maduro. Ao chegar perto de mim, fitou-me com os olhos ainda cheios de lágrimas e balbuciou, com a voz toda trêmula:
– “Não dói nada, não…”
O que? Não tive dúvidas, aos berros fui me afastando e gritei para o bairro inteiro da Penha ouvir:
– “não quero, não vou fazer, eu vou embora!”

Naquele momento a minha mãe toda envergonhada, a enfermeira e outros pacientes tentavam me agarrar e me arrastar para a sala do médico, que, ao ouvir a gritaria saiu até o corredor para saber que "barraco" era aquele.

Não teve jeito, Nem médico, nem enfermeira, nem os outros pacientes conseguiram me segurar. Como um foguete eu ganhei a rua e ainda ouvi o médico gritar algum tipo de "elogio" que eu não entendi, mas também não fiz a menor questão de entender. No caminho de volta, sozinho e ainda assustado, passei em frente ao pequeno bazar da japonesa para dar "adeus" ao presente que eu certamente não iria mais ganhar.

Morávamos em um sobrado e eu, com medo de levar umas belas palmadas, tratei logo de subir no telhado e puxar a escada para não ser alcançado. Assim foi o sábado inteiro, sem café nem almoço, até que, à noite, meus pais finalmente me convenceram a descer dizendo que eu não seria punido. Tive apenas que escutar um longo sermão durante o jantar. Eles decidiriam, depois se remarcariam, ou não, o exame médico.

Nem foi preciso. Eu nunca mais tive pesadelos! O medo da tal agulha gigante que parecia "carga de caneta bic"espantou, para sempre, os alienígenas imaginários que vinham do espaço.

Bem, a vida segue. Hoje, adulto, acho graça quando vejo as crianças assistindo aos seriados bobos de monstros na TV e sempre que passo pela Penha, lembro, com saudades, daquela travessura de meus tempos de moleque.

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