Quem entra na Rua Assumpção, no glorioso bairro do Braz, bem em frente à lateral do Palácio das Indústrias, (que já foi "9 de Julho" e a "Assembléia Legislativa", onde Osasco, em 1964, conseguiu sua emancipação), a primeira ruazinha que encontra, a sua direita, é a antiga, (bem antiga, põe antiga nisso) "Travessa do Gasômetro", hoje ostentando outro nome. Essa viela, com cem metros, se tanto, por dez de largura, não tem saída.
No início do século passado, os fundos da travessa era ocupado por um rinque de patinação, segundo minhas e meus irmãos mais velhos. No local, armazéns cuja entrada é pela Rua do Gasômetro A, área a sua direita (hoje, mais armazéns) era da siderúrgica Stamato; a sua esquerda, só residências, bem simples, de porta e janela no antigo estilo, isto é, sem nenhum estilo. Por favor, não pensem em jardim ou entrada para carro. Nem carrinho de rolimã, pois a ruazinha era de terra, sem nenhum calçamento.
Havia, também, entradas para duas pequenas vilas onde, por capricho do engenheiro, na época, deu guarida para mais três famílias em cada vila, se não me falha a memória. Do lado direito, ao lado do Stamato, uma residência de um funcionário da siderúrgica, "frastiere", ou seja, forasteiro, pois quem não era “bares”, de Polignano a Maré, província de Bari, sul da Itália, era considerado "estrangeiro", em sua própria terra.
Essa "Travessa", como nós nos acostumamos chamá-la, (até hoje) traz muitas recordações que aos poucos vou relatando, conforme minha memória assim o permitir. Morava na Rua Assumpção, bem em frente à travessa, meu pai tinha um empório na esquina da Assumpção com a travessa. Quando eu nasci, em 1932 na mesma Rua Assumpção, onde hoje tem uma belíssima agência do Bradesco, ele já havia passado o armazém para seu irmão, Santo. Esse irmão, falecido em 1938, juntamente com meu avô paterno, Vito, mestre de obras e minha tia Maria. Dois irmãos e o pai, no mesmo ano, é doze, abalou muito meu pai que já havia perdido sua irmã, Carmela na revolução de 1924, cuja estória relatei no nosso glorioso site SPMC, sob o título "Carmela", em 11 de novembro de 2009.
Pouco tempo depois o empório foi vendido ao sr. Seripieri, o "Cafarilo". Na "travessa" tive bons e surpreendentes momentos de minha infância, principalmente nos finais da década de 30 e início da 40. Com total liberdade, sem nenhum risco aparente, eu e meus amigos da mesma idade, brincávamos com bola, pega-pega, uma-na-mula, palha-ou-chumbo, correndo, gritando, pulando sem nenhuma preocupação. Vez ou outra, com fome e a vontade de comer pão de minha avó materna, Maria Labate Mônaco, que morava nos fundos da "travessa", em uma área coletiva com três famílias.
Ao chegar a sua casa, de lá, em outra porta, na mesma vila, ouvia a saudação que me dava, em polignanês, a irmã de minha avó, tia Anina (tia Aninha), em dialeto dos nascidos em Polignano:
– “a Maré, Bari”, sul da Itália e, na tentativa, vou transcrever conforme a pronúncia:
– "Mu vaine u uomane du pene" (lá vem o homem do pão).
Adorava aquele pão de massa branquíssima, macio, gostoso mesmo, que chamávamos de "pão suíço". Para minha avó, que, carinhosamente, chamávamos de "Nonó", era um prazer enorme me dar o "papaccilo", (bico ou ponta do pão), fazia um buraco no miolo e enchia de azeite. Agora, para o meu avô, Vicenzo Mônaco, era uma despesa a mais nos “parcos” recursos que lhe dava a venda de peixes em balaios, pelas ruas do Braz e Mooca. Carrancudo, pouco dado a conversas, não era muito carinhoso, mas boa pessoa, trabalhador e correto. É bem provável que esse perfil seja reflexo de sua atividade em sua terra natal, pescador, que chegava a ficar semanas e até mês e alto mar, aguardando um pesqueiro que lhe garantisse o capital investido.
Na medida do possível, vou escrevendo mais sobre minha infância na "travessa". Obrigado a todos.
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