"Esqueceram de mim" (em 1955 na plataforma da estação Itaquera)

Muito antes do sucesso do filme "Esqueceram de Mim" de Hollywood, eu já havia protagonizado cenas dignas de registro, na plataforma da linha de carga e desvio da Estação de Itaquera, em 1955. Meu nome é Samuel, nasci em 1945 em Guayauna, Penha de França, SP, onde hoje fica a Rua Naca.

Em 1947 mudamos para Ferraz de Vasconcelos. Meu pai era ferroviário, chefe de trem da EFCB. Nas suas folgas, costumava nos acompanhar aos domingos até a Igreja do Brás, na Rua São Leopoldo, Quarta Parada. Lá ele se casou e eu e meus irmãos fomos batizados.

Levantávamos cedo em Ferraz, pegávamos o trem Maria Fumaça às 6h – 7h, descíamos na Quarta Parada, indo a pé até a Igreja. Participávamos dos trabalhos e às 12h -13h fazíamos o caminho de volta a Ferraz. Em um certo domingo de 1955, meu pai estava de folga e levou-nos até a Igreja. Minha mãe ficara em casa, preparando o almoço do domingo (frango e macarronada). Na volta, quando o trem chegou em Itaquera, em vez de pegar a linha da plataforma para Mogi, pegou a linha do desvio, ou da plataforma de carga.

A máquina a vapor então se desligou do resto da composição e saiu. Meu pai, preocupado com o horário, pediu que nós ficássemos sentados no vagão enquanto ele ia falar com o chefe do trem. Como meu pai demorou a voltar, tomei a "brilhante" iniciativa de descer do trem e procurá-lo. Assim que eu desci na plataforma, o trem saiu (Lei de Murphy), porque uma nova máquina já havia sido ligada à composição. Fiquei ali "travado" na plataforma, sem entender nada, vendo o trem se distanciando ao longe.

Felizmente meu pai e o chefe de trem conseguiram contatar o maquinista, que retornou à Estação onde fui resgatado. Não sem antes ter ouvido uma "carraspana" de meu pai, do chefe de trem, do fiscal, do maquinista, do foguista, do agente da estação, do auxiliar, do manobrista, do estagiário e da mulher do cafezinho. Quando retornei ao vagão nem encarei meus irmãos, pois eles estavam se contendo para não piorar a minha situação. Depois disso, toda festa de meu aniversário, ou reunião de família sempre alguém lembrava de me reavivar a memória, relatando estes fatos com detalhes sutis. Fiquei com um trauma tão agudo que cada vez que passava de trem pela Estação de Itaquera olhava pela janela para ver se a máquina estava ligada à composição.

Hoje sou aposentado e moro no Canal 4 em Santos. Registrando e ilustrando fatos de meu passado deparei com a foto da internet de um cara perdido na plataforma do desvio da Estação Itaquera em 1955. Tive um arrepio, pois a estação é a mesma, o trem é o mesmo, o ano é o mesmo! Será que aquele cara sou eu no passado! Ou será que algum fantasma do passado retornou ao presente através da dimensão do tempo. Tudo é relativo, como dizia Einstein.

Saí para a sacada do apartamento e notei a luz do luar refletida no mar na direção da Ilha Porchat. Mas a Lua não tem luz própria, aquilo é a luz do Sol rebatida na superfície da Lua e refletida no mar. Aí então entendi o mistério da foto que a luz do Sol fixou no passado refletindo e gravando no papel a imagem fugaz de uma Estação de Itaquera e da Maria Fumaça que não existem mais, mas estão eternizadas na foto e no HD de nossa memória, que vivemos aqueles maravilhosos tempos d'outrora.

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