Os mais vetustos moradores do tradicional bairro paulistano de Bela Vista, também carinhosamente alcunhado de "Bixiga", se recordam dele, pois também devotava um amor incontido ao bairro.
Os da Mooca possivelmente ignoram seu nome, todavia descreio da probabilidade de que olvidem de sua voz, que me emprestou vida a uma das personagens mais marcantes da história das transmissões radiofônicas de nosso país, sobretudo de São Paulo.
Benedetto Castiglioni, filho de um casal siciliano, um dos pioneiros do então recentemente urbanizado bairro da Bela Vista, herdou a voz soturna e grave do pai. Aos átimos que corriam, período entre guerras, de um país que se modernizava não obstante ainda atado ao “golilha” de um passado marcado pelas monoculturas do setor primário (pau-brasil, cana-de-açúcar, cacau, café, minérios) estações transmitiam por ondas, sons aos mais remotos cantos, desde que houvesse o aparelho receptor, inventado por Teszla segundo alguns, Fermi segundo outros.
O rádio, meio de comunicação soberano àqueles tempos, firmava-se em muitas nações. Além dos monótonos radiojornais, havia as propagandas – denominadas, como hodiernamente ainda ocorre em outras terras lusófonas, de "reclames" – com os sempre presentes corais de moças apregoando "Rugol" ou "sabonete Palmolive" ou uma voz masculina obtestando as maravilhas do creme de barbear "Bozzano".
E além disto tudo, não tardaram a surgir, na pegada das gazetas do precedente século XIX, com os contos e romances folhetinescos, nos quais gênios da literatura como Machado de Assis e José de Alencar iniciaram suas carreiras, as radionovelas.
Em um esquema símile ao dos contos e romances como Helena, Iracema e outros, em capítulos diários, estórias melodramáticas, com personagens cujas vozes eram as de atores e atrizes que se imortalizariam no teatro e até na televisão.
Os moradores mais anciãos da Mooca se recordam de que, ao lusco-fusco crepuscular, a mulherada, após correr às quitandinhas, voltava “azinha” para casa, para grudar os ouvidos na enorme caixa de madeira, com um chiado inelutável, e saber se o herói declararia seu amor à mocinha, filha de seu pior inimigo, ou se finalmente se resolveria a iminente falência da firma e o seu diretor poderia dar o dote de esponsais à sua querida filha.
As casas eram de janelas baixas e as senhoras retardatárias caminhavam vagarosamente para ouvir a radionovela no rádio das vizinhas, por cujas janelas passavam a caminho de seus lares. Não tardou a perceberem que o público masculino ansiava por programas que os agradasse tanto quanto as novelas às suas esposas, mães e irmãs.
Estava descoberto o filão aurífero para um novo programa. Mais tarde do que as radionovelas, quando os chefes da casa tomavam os assentos ainda quentes das mulheres para ouvir os "contos policiais e de suspense".
A voz de Benedetto lhe franqueou as portas da rádio. Diariamente, após a refeição noturna, entrementes as mulheres lavavam a louça e tentavam fazer com que a criançada, muito contrafeita, se deixasse levar pelo deus Morfeu, os homens não arredavam do pé do rádio, para saber se o delegado Astrogildo revelaria o assassino do senhor Josué.
Ao término, sempre vinha a voz do narrador:
– "O que se oculta no imo dos corações humanos? Quem o sabe? O Sombra sabe".
Esta voz, sombria e barítona, com um "R" incontestavelmente paulista, era a de Benedetto.
Morreu na década de 70. Sempre mostrava o recibo de 500 réis, o preço para ter um aparelho de rádio em casa. Ademais de pagar a soma, o proprietário desta caixa mágica tinha de deixar seus dados à polícia.
Às primícias da década de 40, o perigo de espionagem, pró-eixo ou pró-aliados, ainda era grande.
E 500 réis era uma soma razoável para as autoridades governamentais que “acaparavam” a distribuição e licenciamento dos rádios.
Quantas outras histórias haverá no imo do coração desta São Paulo? Nós, os Sombras, sabemos.
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