Os ambulantes…

Já dizia uma música…
"Como a mente voa, quando a gente começa a pensar"

Acabo de me deliciar com um picolé de "coco queimado", que a esposa adquiriu em uma oferta de um ambulante em frente de casa. Nada sofisticado, mas suficiente para a memória voltar algumas boas décadas, à hoje distante infância e adolescência, nas ruas de terra batida da Vila Nair, no Ipiranga.

E eu não percebia quanto a vida dos pais de família era dura, e muitas vezes ingrata. A dificuldade que migrantes do interior em busca de trabalho; o aluguel de um ou dois pequenos cômodos, muitas vezes em cortiços; a caderneta no armazém da esquina, cujo vencimento mensal parecia vir mais rápido que o pagamento do salário, daqueles que tinham o privilégio do emprego, e, ou melhor, ainda de uma profissão melhor remunerada.

A infância corria sem que percebêssemos em que velocidade…e sem notar as agruras dos pais em garantir o sustento da família….

E cá nas minhas reminiscências, começam a desfilar figuras que a memória vai buscando lá no fundo do arquivo, que teima, muitas vezes a se tornar de difícil acesso.

Sem me importar com ordem, o primeiro que veio a mente, foi o vendedor de "pirulitos". O pirulito era apenas uma porção de açúcar queimado, guardando algum sabor específico de groselha; enrolado de forma cônica em um papel manteiga; pesando meras gramas de conteúdo, e cujo vendedor os dispunha em uma bandeja de madeira furada, que trazia pendurada ao pescoço por uma tira… E apregoava sua mercadoria…com voz dolente…
– “Olha o pirulito, olha o pirulito…dois quinhentão…quatro destão (sic)…”
E lá ia ele percorrendo as ruas em busca dos possíveis compradores…

Outro que lembro era o vendedor de "algodão doce". Este dispunha de uma espécie de carrinho envidraçado, com pedal igual ao de bicicleta para acionar a maquininha que encantava a garotada, ao ver que da chama esverdeada do fogo a álcool, ia surgindo o algodão, que com maestria o operador amontoava em um palito. E o doce evanescia nas bocas sequiosas da garotada.

Também o vendedor de leite de cabra, que percorria as ruas da vila com seu rebanho, ofertando sua mercadoria fresquinha (ops!), quentinha, diretamente da fonte produtora… O sininho da cabra madrinha era sua chamada…..

Ah…outro… A matraca anunciava o vendedor de biju… Para encurtar… Quebra queixo… Machadinha… Lembram… E outros que a criançada, não dava tanta importância…

O verdureiro, que além da cultura na chácara fazia o varejo… O vendedor de sardinha, que apregoava; com sua voz rouca…
– "sardinha viva…”

E o mais cômico de todos… Um velhinho, aquele, que vendia miúdos de carne, devidamente, acomodados em uma cesta de vime… Ao passar perto de alguma moça bonita, apregoava em seu espanhol
-"corazon… corazon…”
E quando perto de outra um tanto que feia, lascava…
– "butcho… butcho…”

Enfim, eram simplesmente pessoas trabalhando em busca de recursos para sobreviver. Devia ser muito difícil. Hoje troca-se a dignidade pela facilidade das esmolas do assistencialismo demagógico e barato…

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