Infância no Tatuapé, inesquecível…

Amigos, corria o ano 1959 e eu então com apenas nove anos de idade, mas lembro-me bem da felicidade vivida nesse bom tempo, mês de agosto, vento a vontade e com o vento as que hoje são chamadas "pipas" na época chamávamos de "quadrado", com nomes diferentes para cada armação tinha a "carambola, peixinho, a barraca (quando era uma armação grande)e por aí vai.

Meu papai e minha mamãe (hoje saudosos) trabalhavam, e eu que era o filho do meio e o meu irmão caçula ficávamos em casa e era simplesmente uma festa, como era gostoso, pegar aquelas varetas de taquaras fininhas e dar um formato qualquer com um bom pedaço de linha, um pedaço de papel de seda, cola, conseguir um pedaço de pano fino, para poder fazer a "rabiola, os estirantes e pronto, lá íamos felizes empinar o nosso "quadrado". Quase não tinha fios elétricos, pois tinha muitas chácaras e terreno baldio, e ficávamos horas a fio a empinar os nossos "quadrados" até que um outro vinha de longe e pronto, os dois se embaraçavam no ar e pronto, perdíamos o nosso brinquedo, mas, não chorávamos não, depois fazíamos outro.

As ruas de terra batida, valetas a céu aberto, meu pai pagava aluguel e por isso mesmo a casa onde morávamos era bem simples, tínhamos um gato preto que à noite se sujava de lama em função das muitas brigas e vinha pelo alçapão e descia pela parede da cozinha e sujava tudo, minha saudosa mãe, ficava nervosa e discutia com meu pai, lembro-me também que nessa época morava nos fundos de casa, um casal que tinha duas filhas pequenas e eles brigavam muito e direto, no quarto que dormia eu e meu irmão ficava bem pertinho da porta deles, e lembro que quando começava as brigas, eu e meu irmão nos escondíamos debaixo da cama de tanto medo até o meu pai chegar e nos acalmar, eles nunca mexiam com a gente, enfim só sei que tudo acabou bem, tudo isso ali no finzinho da Rua Serra de Botucatu, bem pertinho do rio Aricanduva.

Lembro que na minha casa tinha uma banheira e era uma festa na hora de tomar banho, meu pai não gostava muito, pois gastava uma água lascada, um tempo que tudo na natureza era respeitado e sabíamos que em janeiro, fevereiro era o mês das águas e março era o mês esperado por nós crianças pois chegava a páscoa, chocolates, doces, chegava abril, maio e junho era tempo de frio, festas juninas, fogueiras, balões, batata, doce, quentão (para quem gostava), depois o tempo de "pipas, quadrados" e depois então ficávamos a espera do tão sonhado natal e essa era a nossa vida, a vida de crianças, de um bairro bacana de se morar, de se viver e que hoje mesmo já com a idade chegando e morando longe dali, não esqueço nunca daquele pedacinho de terra, que foi um oásis na minha vida, Tatuapé, não te esqueço jamais..

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