Bem, todo mundo já sabe que eu morava na Parada Inglesa. Este lugar é o lugar dos meus sonhos, um dia ainda volto para lá. Quando eu era um garotão, morava na Rua Tomé Portes. Estava eu com os meus 16 anos (“ih, faz teeeeempo”) e a uns 70 metros da minha casa, do lado direito, morava a Dona Nerina do seu Pedroso, mãe do Roberto. Ela tinha na casa dela um papagaio, de nome Hilário, (naquele tempo podia, ainda não tinha a história do politicamente correto).
Muito bem, quem nos acordava era ele e não o galo. Todo dia, de manhã, o Hilário fazia uma gritaria tão grande que não tinha quem não acordasse. Então, um belo dia, a dona Maria do seu Abrahão, dono das cabras que vendia leite para gente, (quem nunca bebeu leite de cabra, não sabe o que perdeu) e que morava a uns 50 metros da minha casa, do lado esquerdo, disse para a Dona Nerina, que gostaria também de ter um papagaio, e esta, a Dona Nerina, prometeu que ia arrumar um para ela, e não deu outra, uns 15 ou 20 dias depois, vindo não sei de onde, apareceu o papagaio da Dona Maria.
Em agradecimento, a Dona Maria pôs nele o nome de Hilário também e aí é que a coisa pirou. Gente do céu, de manhã era uma zoeira tremenda, parecia que os Hilários concorriam entre si para ver quem fazia mais barulho. Nos dias de semana tudo bem, mas aos sábados, domingos e feriados, a gente estava proibido de dormir até mais tarde. 8h30 da manhã, no máximo, todo mundo do pedaço já estava de pé, por cauda dos Hilários. E o gozado é que não havia discórdia, briga ou reclamação por cauda disso. Havia entre nós, os vizinhos, uma camaradagem muito grande e os Hilários, no lugar de serem um estorvo para nós, eram folclóricos, motivos de risos e brincadeiras.
Ah, se fosse hoje. Já pensaram na confusão. Em 1968, eu mudei dali e fui morar mais longe, ainda na Parada, mas na Rua Sérvio Caldas, e não soube que fim tiveram os Hilários. De certo viveram muito tempo e morreram acordando o pessoal.
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