O Serafim saiu do grupo escolar Miss Browne às 11h da manhã. Dona Deolinda, a professora de música que morava ali perto, na Rua Caraíbas, tinha acabado de ensinar durante a aula de orfeão o canto do Hino Nacional e em seguida, o da Bandeira. Por que o Agnaldo vinha todas as noites na casa da senhorita Florzinha? Que fazia ele lá? Era ele um estudante do quarto ano do Largo de São Francisco, no entanto, nas horas de folga, vinha treinado para ser artista do trampolim de um circo que estava sendo montado no Largo da Vila Vitória, próximo da Rua Turiassu.<br><br>O Nicácio, amigo do Biriba que morava na Rua Venâncio Aires, foi direto para a mercearia do Badico que ficava na esquina da Avenida Antártica e por coincidência, achou a caminhonete estacionada de fronte da mercearia e estava repleta de mercadorias para serem entregues. Uma tentação! Uma lata de leite condensado "Moça" estava dando sopa na caixa de papelão aberta. Um instante e pronto! Havia surrupiado e em desabalada carreira foi até o buraco do terreno baldio onde a fábrica de brinquedos Trol jogava os resíduos, e a molecada escondia o produto das pequenas subtrações. Fez três furos na latinha. Uma era para o Quito, outra para o Nanico, outra para o Dungão. Tudo dividido “irmãmente” entre os três.<br><br>A dona Balbina, moradora do cortiço do Chico Gordo estava estendendo os lençóis que acabara de lavar no tanque de cimento. Que dureza de vida! Todo aquele trabalhão por apenas cinco mil réis. O Anacleto, o filho mais velho, tinha que pegar o bonde das 7h da manhã no Largo da Pompéia. Costumava levantar as seis, ia até a padaria "Vitália" comprar um filão de pão, um litro de leite e alguns tabletes de açúcar preto. Isso, quando dava sorte de não ter que enfrentar a fila do pão durante toda a madrugada, porque estavam em guerra e a farinha estava racionada.<br><br>O Rugero, o fígaro do bairro, um italiano vindo das calendas do sul da Itália, de Pezzo di Calábria, vivia rondando o Carmenieri para fazer uma fezinha no jogo do bicho no chalé do Metello. No escadão de um sobrado abandonado, uma tragédia. O Zé Ismael, um alcoólatra inveterado, morador de rua, tinha acabado de morrer. O fígado do infeliz não aguentou o impacto e a cirrose foi implacável. Ah! O Tamanqueiro, um sortudo cidadão lusitano do "Trás dos Montes" morador de um quartinho nos fundos do campo do Palestra Itália desfrutava da residência oferecida pelo clube gratuitamente. Ele cuidava das chuteiras (xancas) dos craques da época. E o Nicanor um sovina quatrocentão, o único alegre do bairro, porque era funcionário público federal e recebia um conto de réis por mês. Na época, uma fortuna!<br><br>Na arquibancada de madeira nos fundos do gol da entrada da Avenida Francisco Matarazzo, o Adalberto, o Juvenal e o Nicolau estavam todos aboletados no último degrau no topo do Madeirame e assistiam o treino do time principal. Camisas verdes, calções brancos, chocavam-se, caiam aos trancos e arrancos, driblavam, corriam de um lado para outro do campo, como 11 babacas atrás de uma bola de capotão marrom. Mas o que fazer? Era um delírio inexplicável na plateia. A finalidade eram os três pedaços de madeiras fincados no chão com uma rede de barbante enroscada nas travas de pregos. Quando a bola ali penetrava, parecia que a plateia entrava em delírio que nem o Sigismundo Freud conseguiria explicar. Um fanatismo só. Era real aquele extremismo, aquele absolutismo. O juiz tinha que ser um antipartidário, um abstinente de emoções, não professar nenhum interesse futebolístico por time nenhum, para o bom andamento da peleja. Quando saia um gol, voavam para cima os chapéus Ramenzone. E gritos de:<br> – “Goool!”<br> Esvoaçavam pelos ares nos quatro cantos do estádio. A exaltação frenética era espontânea, momentânea, depois decrescia como um trovão que após o estrondo passa ligeiro. Naquela tarde, o resultado foi de 2×1 para o time principal contra o time reserva do segundo quadro.<br><br>O Dungão recusou a sopa que a mãe tinha feito para ele. Estava efetivamente doente. A garganta envolta em um chumaço de algodão embebido no álcool enrolado em um cachecol de lã para proteger a garganta do frio. Um comprimido de Celofeno, um vidrinho de óleo de rícino o terror da molecada, tomado com um copo de guaraná e o estrago não demorava muito a se manifestar. Parecia como um rei. Não conseguia sair do trono o dia inteiro. A mãe lembrava como curiosidade do Mussolini, quando dava esse remédio para o povo e até para os seus entes da família para evitar que fizessem arruaças. Mas o tratamento do Crispim, fã do ditador italiano o curandeiro do bairro, era efetivamente infalível. Dentro de dois dias no máximo, o moleque estava pronto para novas aventuras.<br><br>A dona Jandira ficou sabendo naquele mesmo dia, pela filha Teresa, que o irmão o Jurinha tinha acabado de fugir do Hospício de Franco da Rocha onde estava internado com distúrbios mentais, depois de ter voltado dos campos de batalha na Itália. Viera dentro de um ônibus depois que o motorista viu o uniforme do paciente hospedado no Juquerí e resolveu acalmá-lo e levá-lo até a casa da irmã, na Vila Pompéia. Não pediu licença para ninguém, em um descuido da segurança fugiu com o uniforme do hospital. Em um domingo carnavalesco, se fantasiou de odalisca e foi desfilar na Avenida São João.<br><br> O Tôtonio tinha ido assistir no teatro de revista na Praça Julio de Mesquita o desfile da Elvira Pagã e a Luz Del Fuego e levou consigo o Tomy (Tomé) um engenheiro inglês aposentado da Ligth. A Luz de Fuego estava enroscada em uma serpente, mostrando a sua nudez. Era carnaval naquele fevereiro de 1943. O Tôtonio tinha levado o lança perfume metálico dourado da Rodhia e deu uma esguichada no olho da mulher que se contorceu toda, no meio do palco, cega pelo efeito do éter.<br><br>A Margaret Mac Donald uma fofoqueira tinha vendido o Juca por uma xícara de chá das cinco da tarde. Acontece que o Juca tinha se apaixonado pela linda inglesinha Muriel Adams, e estava com boas intenções com a moça. Ela tinha acabado de chegar de Londres e o pai assumiu a filial de uma grande multinacional aqui no Brasil. A fama de mulherengo do Juca tinha posto tudo a perder. Ela morava na Rua Tomé de Souza, na Lapa:<br>- “Muito grato pela gentileza de me informar-me sobre o rapaz!”<br> Disse a mãe da moça.<br><br>O diálogo era todo em inglês. A indignação do Juca não tinha limites. Mas antes de sair, bateu a porta da rua com força, roncou o ódio, espumou verde, acendeu um estoura peito, um Fulgor sem filtro e para espraiar a cabeça, foi passear no centro da cidade. O que a Margaret tinha com isso? O assunto era dele e de ninguém mais. A menina só tinha 15 anos de idade. Lembrou quando da festa junina da Cia Melhoramentos e que ele levou a Muriel ao baile caipira. Imaginem só uma inglesinha vestida a rigor, com trajes caipiras e uma flor nos cabelos loiros. Que linda ela estava. Mas o que fazer agora? Nada! Depois foi espairecer a sua desilusão nos passeios pelas Ruas dos Tibiras, Aurora, Vitória sobre a luz dos bares rasteiros baratos da noite boêmia. Ficou apenas no seu subconsciente a lembrança de suas alegres e aleatórias, memórias paulistanas.<br><br><br>E-mail: [email protected]