Participei de um grupo de trabalho, juntamente com minha falecida esposa, por dez anos numa casa espírita, mais precisamente na sala de aplicação de passes mediúnicos, também conhecida como câmara de passes.
Éramos um grupo, heterogêneo, composto por empresários, profissionais liberais, professores e donas de casa, que após concluírem o curso de médiuns, eram convidados a trabalhar na aplicação de passes.
A casa tinha muitos frequentadores, que habitualmente tomavam passes, assistiam às palestras, participavam de cânticos e orações, e outras pessoas que aguardavam mensagens de entes queridos desencarnados.
Uma das regras da casa, além de outras recomendações, era vestimenta branca, e ao longo do tempo que lá trabalhei, poderia relembrar vários fatos acontecidos na sala de passes, mas era necessário manter sigilo para a preservação das pessoas envolvidas.
Entretanto recordo-me que no grupo, havia uma senhora na faixa além dos 60 anos de nome D. Rute. Ela era uma das primeiras a chegar, pois vinha a pé do início da Av. João XIII desde a Vila Formosa até altura do Número 2000 da Av. Sapopemba. A vida era difícil para D. Rute, morava precariamente de aluguel, consta que tinha um filho alcoólatra que lhe dava trabalho e outra filha da qual pouca ou nenhuma ajuda tinha. Assistência médica e dentária, nem pensar.
Às vezes, o pessoal da sala cotizava-se para ajudá-la nas despesas, que ela aceitava de bom grado. "Não tenho condições de recusar ajuda" dizia. Nos dias de trabalho, como era hábito, ela arrumava a sala, fazia suas orações e aguardava a entrada dos primeiros trabalhadores.
Ocorria que às vezes, alguma pessoa entrava na sala de passes, com alto grau de perturbação, que na literatura espírita chamávamos de espírito obsessor, que estava "encostado" naquela pessoa a qual procurou a casa espírita para expulsar quem a obsidiava.
Em uma dessas situações, uma senhora entrou na sala de passes tomada por um obsessor gritando e proferindo palavrões, o passista que assistia aquela senhora, perdeu o controle da situação, o dirigente do trabalho procurou isolar a senhora no fundo da sala, a qual andava de um lado para outro como se estivesse dominando a situação impondo sua vontade, até que disse em voz alta:
– "Só tem uma pessoa dentre todos, que merece estar aqui, D. Rute onde está a senhora?”.
Em um cantinho da sala, orando silenciosamente, D. Rute respondeu:
– "Estou aqui minha irmã", e passando a mão pela cabeça da obsidiada, orou:
– "Descanse aqui de suas angústias e de todo o sofrimento em nome de Deus Pai".
A obsidiada abraçou fortemente D. Rute, permanecendo por alguns minutos e desabou em um choro convulsivo. Em seguida, a obsidiada abatida pelo cansaço retirou-se calmamente da sala, como se tivesse removido um peso das costas.
Por envolver uma pessoa humilde que nada tinha em termos de bens materiais, mas possuía uma luz muito grande, aquela cena demonstrou que os benfeitores espirituais utilizam-se dos serviços de quem tem condições de se doar na seara espírita, independente de situação financeira, cultura ou status social.
Aquela cena foi o meu maior aprendizado naquela casa espírita, e marcou-me muito.
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