O Carnaval Paulistano

Foi o tempo em que o carnaval era uma brincadeira sadia. Nos anos 1930 na Avenida Paulista tinha o Corso em que as pessoas ficavam em cima dos carros alegóricos ou mesmo em carros de passeio abertos ou em caminhões, jogando confetes e serpentinas ou tentando acertar o olho de alguém com lança perfume. Com a morte do Conde Francisco Matarazzo, a família pediu para que aquele ano não fosse realizado o Corso, pois passava em frente a mansão dos Matarazzos, que ficava na esquina da Rua Pamplona. Daí para frente não mais teve aquele desfile de carros e pessoas pela Avenida Paulista. Nos anos 1940 – 50 o carnaval se resumia em bailes de salão, e desfiles oficiosos de cordões e escolas de samba. Na verdade era tudo desorganizado. Os tais desfiles eram na Avenida São João, mas o pessoal gostava mesmo era de ficar sentado ou deitado nos gramados do Vale do Anhangabaú. Onde sempre tinha uma farofinha trazida de casa. Mas a oficialização mesmo do Carnaval veio em 1967, através do nosso prefeito nascido na Vila Izabel (Rio de Janeiro) Faria Lima, atendendo a um pedido do radialista Rubens de Moraes Sarmento. Naqueles anos de 1950 o Nenê da Vila Matilde era uma escola vencedora. No bairro do Itaim tinha a escola de samba Garotos do Itaim que não ficava devendo nada a ninguém, era também uma grande vencedora. Se não me falha a memória foi ela quem ganhou o Carnaval do IV Centenário (corrija-me se estiver errado). Mas ainda nos anos 1969 – 70 os bailes de Salão estava na moda. O baile referência era o do Palmeiras, na Rua Turiaçu. Era sempre lembrado pelas reportagens quando se iniciava os preparativos do carnaval. Também o do Corinthians, um baile popular era realizado no ginásio da “fazendinha”. Outro baile do muito bom era o do Juventus em sua sede antiga. Foi lá em 1961 que participei do único baile de momo na minha vida (na verdade nunca fui muito de Carnaval) Quando estávamos indo para a Mooca, paramos num sujinho da Praça da Sé, para comer algo. Comi um sanduíche e passei mal logo em seguida. Falei para o Malvino, Bertinho, Dilu e outros que estavam que ia voltar, pois não estava sentindo bem do estomago. Foi quando o Bertinho disse: Vai embora coisa nenhuma. Toma esse comprimido que passa logo. Lembro direitinho que era em formato de coração de cor verde. Deu-me dois que era para matar a dor na porrada, segundo ele. Questão de segundos a dor passou como se tivesse tirado com a mão. Pulei aquele sábado até as quatro de lá matina. Lembro-me que tinha uma marchinha que mandava fazer o quatro com as pernas – Faz um quatro aí que eu quero ver, era a estrofe. Fui para casa às seis da manhã. Não conseguia dormir. Fui para o fundo do quintal e comecei a fazer ginástica. Fiquei assustado, fui fazer xixi e não achava a torneira mijadora. Parecia que tudo estava anestesiado. Fui apitar um jogo de futebol do Unidos da Vila Olímpia. Confesso que foi talvez a melhor arbitragem que tive na vida. Corria mais que a bola. Apitava tudo em cima. Até impedimento eu apitava na linha da bola (na várzea não existia bandeirinha). À tarde fui jogar no Flamengo. À noite fui para a São João, do Anhangabaú fui a pé até a Alameda Glete e voltei. Fui para casa deitei, mas dormir não. Na segunda repeti a dose. Só na terça feira é que consegui dormir. Quando passou o efeito dos comprimidos (rebite) foi que desabei numa tremenda distensão muscular que fiquei dois meses todo dolorido e com dificuldade para andar. Carnaval para mim terminou naquele ano da graça de 1961.