Nosso cérebro é incrivelmente maravilhoso! Tinha de ser perfeito para poder comandar essa máquina tão incrível que é o nosso corpo!
Do nada, me pego pensando em coisas, pessoas, situações, paisagens, cheiros que estavam há muito confinados na mais remota gavetinha do baú do passado… De repente, sem quê nem por que, vejo-me de volta à Rua Sete Lagoas, na Penha, em uma tarde de Natal, olhando, maravilhada, junto com a minha turminha, a chuva que vinha chegando mansinha, do início da nossa rua, lá no alto, acelerando para nos alcançar… E quando chegou, molhou com prazer aquele grupo de crianças que já estavam excitadas pelo inusitado da coisa! Foi mágico ver a chuva chegar por etapas!
Acho incrível o poder que um cheiro, perfume ou aroma tem de nos transportar no tempo! E quando volto, sinto toda a emoção renascer em mim! Explico: quando eu era criança, a mamãe trabalhava no Juizado de Menores, na Celso Garcia e de vez em quando íamos com ela até lá. O aroma da carne de panela que era servida era único, delicioso! Mas pouquíssimas vezes eu voltei a senti-lo e quando isso aconteceu, senti-me feliz por me rever com a mamãe em seu local de trabalho! Era como se realmente eu revivesse aquela situação…
Quando vejo um determinado quintal em que há uma ribanceira por trás e acima da casa, lembro imediatamente de uma casa de amiguinhos da rua do meu tio … Frequentei muito pouco essa casa, mas ela ficou marcada em minha memória…
De repente, vejo-me na Rua Paracanã indo buscar água na biquinha, juntamente com as outras crianças da rua, sempre que faltava o precioso líquido… Ninguém reclamava, ninguém tinha vergonha, ninguém questionava… Tínhamos de ir, íamos e pronto!
Tenho muita insônia e esses pensamentos chegam e tomam conta da minha mente e logo preenchem a minha noite. Em uma noite dessas, vi-me na Cruzada, ao lado do Cine São Geraldo, em um sábado, sentada na grama com outras crianças e algumas moças, creio que eram catequistas ou monitoras. Estávamos esperando chegar à pessoa que estava com a chave do prédio e, enquanto isso, ouvíamos estórias sentados na grama do jardim. Lembro-me de ter sentido algo nas minhas costas (eu devia ter por volta de quatro anos aproximadamente) e, inocentemente botei a mãozinha para trás, e peguei o que julgava ser uma flor. Quando abri a mão, era uma aranha bem grande, provavelmente inofensiva, que nela estava. Gritei assustada e creio que não mais sentei naquela grama… Esse prédio era de dois andares (um térreo e outro andar) e em toda a sua volta havia uma estrutura estreita de concreto. Seria alta para qualquer pessoa e nós, crianças bem pequenas, não sei como driblávamos a vigilância, pulávamos a janela e andávamos por ela, sem medo… Hoje eu não faria isso nem obrigada! Jamais alguém caiu de lá!
Passam coisas pela minha mente que, confesso, às vezes não sei se são realidade ou sonho… Não tenho muitas lembranças dos meus primeiros anos de vida, mas de alguns fatos, de algumas passagens, recordo-me sempre… Por exemplo, como já contei, de ter comido todas as rosinhas do bolo do meu priminho; da minha primeira comunhão; do episódio da aranha; de cantarmos nas missas do Galo, em latim, no presépio montado no altar da Igreja velha da Penha (na época não era velha); da dor de cabeça que senti após ficar durante horas deitada no chão, vendo o desfile de formigas tanajuras, entrando e saindo do seu formigueiro. Elas exalavam um cheiro tão forte (acho que é feromônio) e eu não percebi… Das sobremesas que a minha madrinha fazia… Dos desenhos de flores com que ela decorava os meus cadernos, principalmente os de Puericultura, que fascinavam a mim e às minhas coleguinhas no primário… Do temor do primeiro dia de aula, do medo do desconhecido e de ver esse medo dissipado ao conhecer a bondosa professora, dona Odila, já bem idosa na época…
Do dia que em um passeio, conheci a exótica carambola… Da alegria de mostrar aos amiguinhos nossos presentinhos de Natal, sem medo de comparação de valores – ninguém pensava nisso. Ninguém se achava mais querido, mais amado, por ter ganho um presente diferenciado… São tantas coisinhas que me ocorrem que me deixam fascinada com essa nossa máquina pensante! E pensar que a mamãe faleceu vitimada por uma doença terrível que ataca sem dó o cérebro – mal de Alzheimer! O que ela faz com as pessoas é muito triste e deprimente!
Mas espero ainda me lembrar de muitas coisa para escrever nesse delicioso site, pois, assim, além de exercitar o meu cérebro, volto a me sentir bem e feliz em recordar momentos agradáveis da minha vida!
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