Fusão de etnias – Salim Jorge Achcar desposou minha tia

A vida pode nos oferecer amigos especiais. A família nos oferece alguns parentes notáveis. E alguns casamentos também revelam pessoas especiais e notáveis, que mesmo não sendo consanguíneas, se tornam o foco de nossa atenção e afeto. Pessoas ímpares que, são amáveis, companheiras, divertidas, generosas, de bom astral e que sabem gozar a vida. Este é o retrato de meu tio Salim que se tornou meu tio pelo casamento com Maria de Lourdes Bernardi, irmã de meu pai.

Salim era filho de libaneses, Jorge Nicolau Achcar (1881-1955) e Mariana. Muito animado gostava de festas em família com muita comida de qualidade e música. Comer fora reunindo as famílias era muito comum, quase sempre na Churrascaria Gaúcha ou no Restaurante Bambina. Uma de suas brincadeiras preferidas veio de esquete do rádio. Ele contava que uma pessoa desconhecida chegava a sua loja, e perguntava pelo Sr. Salim. Ao que ele respondia:
– "Salim, ‘saieu’."
Se a pessoa falasse que se tratava de cobrar uma conta, ele imediatamente repetia:
– "Já disse que Salim saiu e não sei quando volta".
Mas no caso da pessoa querer pagar uma conta na loja, ele logo se apressava e dizia:
– "É o que falei, Salim sou eu, pode me pagar".

Na simplificação do povo brasileiro ele era o "turco" Salim. Mas ele sempre de muito bom humor explicava que, "Eles te chamam de turco enquanto você ainda é pobre". Ora se você enriquecer um pouco eles te tratam por "sírio". Mas se você se tornar um homem riquíssimo, aí eles te chamam de "armênio". Eu em minha ingenuidade de criança acreditava na veracidade da história, mas hoje sei que era apenas o exercício de um humor impagável.

No Brasil essa denominação generalizada de “turcos", não passam pelo conhecimento de que foram os turcos os grandes perseguidores de todos os cristãos daquelas regiões e responsáveis pela grande imigração sírio-libanesa, especialmente no início do século XX. O ano de 1908 marcado pela Revolução dos Jovens Turcos, foi o início dessa violência de fundo religioso.

Do casamento de Salim e Maria de Lourdes, nasceram os três primos, Carlos Edgard, Luiz Roberto e Eduardo Achcar. Do primeiro veio Michelle, do segundo, Vanessa, Andréia e Fabiana e do último, Eduardo e Ana Carolina.

Das lembranças mais marcantes de meu tio Salim, as reuniões familiares e jantares em finais de semana em restaurantes… em uma festa de Páscoa, ele surgiu com um ovo de páscoa gigante, que ao invés de ser desembrulhado foi aberto sendo socado por nós, os pequenos. Sempre perguntava, "Está alegre? Então canta!" E eu que não me fazia de rogado, sapecava "O trem das onze" do Adoniram ou o "Io che non vivo senza te” do Pino Donaggio.

Minha tia Lourdes, excelente cozinheira no universo da culinária italiana, aprendeu com maestria a preparar os quitutes da cozinha árabe, com uma vizinha amiga. E a família se deliciava com tabule, quibes, esfihas abertas ou fechadas, chancliche, homus com tahine e charutos de folhas de uva.

Vou ainda relatar aqui a história da imigração dos pais de Salim Jorge Achcar que chegaram ao porto de Santos em 1910, e se radicaram em São Paulo, vindos do norte do Líbano da cidade de Baino Akkar.

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