Era uma figura ímpar. Quando o conheci, ele tinha os cabelos claros já apresentando fios brancos, que realçavam aqueles olhos azuis que pareciam estar sempre à espreita para descobrir algo engraçado, ao mesmo tempo em que parecia que via o fundo de nossa alma!
Era tio do meu marido, irmão da Dona Bia, minha sogra. Era seu irmão "companheirinho de sempre", como ela dizia. Desde pequeninos, iam os dois por um longo trecho a pé, após a escola, levar a comida quentinha para o seu pai, que trabalhava no Belém. Na volta, apesar da pouca idade, traziam um saco de carvão cada um. Certo dia, resolveram reclamar com o vô Olindo que era muito pesado para eles carregarem e ganharam, como prêmio, o privilégio de levarem um saco ainda maior! Nunca mais reclamaram de nada nessa vida!
Era uma pessoa sempre de bem com a vida, alegre, “aprontão”, bem humorado! Quando era jovem, não se sabe por que, simpatizou com o Meneghetti, que estava preso, e ia, todos os domingos, na prisão, levar uma macarronada fresquinha para ele! Assim era o tio Áureo! Foi a primeira pessoa a trabalhar com computador na Sabesp e isso sempre foi motivo de grande orgulho para ele. Até há pouco tempo, mesmo aposentado, no fechamento do mês, ainda ia àquele órgão para ajudar os colegas na tarefa tão sua conhecida!
Sempre teve muitos problemas de saúde – colecionou vários tipos de câncer – mas parece que conseguia driblar todos eles. Ligava para a Dona Bia e quando ela, chorando, lhe perguntava como ele estava, respondia sempre com uma piada, sempre de bom humor, como se estivesse falando de outra pessoa! Teve época de que seu estado era tão crítico, que quando tinha de ir a algum lugar tinha de ligar antes para que se retirassem de lá mulheres grávidas e crianças (acho que ele estava se tratando com iodo radiativo, não tenho certeza)!
Certa vez, no Hospital das Clínicas, um médico norte-americano iria fazer uns testes com alguns pacientes e, para tanto, resolveu entrevistá-los antes. Adivinhem quem foi um dos escolhidos? Pois é, o próprio! O médico lhe disse, na época, que sua alegria e seu bom humor já configuravam metade da cura… Em outra situação, foi ao médico e reclamou que o joelho esquerdo estava muito dolorido (ele usava bengala), ao que o médico retrucou, brincalhão:
– "É, seu Áureo, o senhor precisa ver que esse joelho já tem sessenta e dois anos!"
O tio não se deu por vencido e respondeu:
– "É verdade, doutor, mas esse outro joelho tem a mesma idade e não dói nenhum pouquinho!"
No ano passado, a doença finalmente o venceu! Acredito que com a sua ida para lá, o outro plano deve ter ficado mais alegre e feliz!
E-mail: [email protected]