Estava sempre na oficina do primo Claudio, na Rua Zilda, na Casa Verde, construindo carrinhos para andar com pipa ou vela. A gente vivia melhorando os projetos dos carrinhos e muitas vezes eu desenhava no “Cad” pipas e velas para poder analisar as perspectivas diferentes. Aquele dia eu estava esperando meu primo na oficina e ele chegou da agência de propaganda com novidade. Ele tinha me pedido algumas revistas francesas de pipas e levou para um conhecido que queria ver as fotos. Eles queriam escolher alguma pipa para promover uma campanha. Pensava: Que pipa que esse povo vai escolher?<br><br>Não tinha receio de construir a pipa escolhida, pois já havia feito mais de cem tipos diferentes e todas subiam, algumas melhores outras nem tanto. Acho que não vão me surpreender e vão escolher alguma pipa de bicho. Chega o Claudio, todo contente:<br><br>- Pedrinho, querem aquela faixa da praia, querem as maiores possíveis e querem duas, brancas. É para uma campanha da Johnson.<br><br>Caramba, além de surpreso fiquei com receio de fazer algo difícil de construir e soltar. Nunca tinha feito essas pipas arco-íris. Pensei que um valor alto poderia fazer o interessado desistir.<br><br>- Claudio, liga para o seu amigo e passa o preço das duas pipas com 60 metros de comprimento cada. Não dá desconto senão não vale a pena…<br><br>Ele liga, ficam conversando, ele passa o preço (triplicado). Quando desliga ele fala simplesmente:<br><br>- É para ser usada nas praias de Fortaleza, campanha da Sempre Livre que a fofa da Luana Piovani está fazendo na TV. <br><br>Eles aceitaram o preço, não tem problema e querem saber quando que a gente pode entregar. Que fazer? Agora a dupla tinha que fazer aquele monstro de pipa. Imagina só a força que ia fazer uma pipa de 60 metros quadrados se um paraquedas tem apenas 12 metros quadrados! Era grande a pipa, era do comprimento do quintal da nossa casa da Barra Funda. Acho que era a maior pipa que fiz. Compramos o material e ficamos três dias costurando, eu em uma máquina e ele na outra. Era uma faixa de 60m por 1m com uma vareta de fibra de vidro cada metro.<br><br>Nas duas extremidades, a vareta era um tarugo de 15mm para segurar uns 200 quilos, amarradas em V com corda de nylon de 6mm com 30m em cada lado. Na borda de ataque e na borda de fuga, fita plástica de fechar caixa de papelão, costurada para reforço estrutural. Aquela mais grossa de PVC verde. Cada conjunto, pronto e enrolado, cabia em uma sacola de 1,3m de altura e 1m de diâmetro, pesando uns 15kg cada. Era grande a bicha. Para não ter problemas, íamos experimentar antes da entrega. Marcamos para entregar as pipas no Parque Villa-Lobos. Eles iam ver a pipa no ar para entender como ela funcionava. Chegamos duas horas antes, eu e Claudio, para colocar aquilo no ar.<br><br>Deixamos uma das sacolas no carro e fomos para o parque rezando. Por sorte, estava ventando e era um vento contínuo. Certinho. Falei para o meu primo: <br><br>- Clá, a gente precisa encontrar dois pontos de apoio para amarrar as duas cordas da pipa. Esses dois pontos tem que estar um do outro 30 a 40 metros e imaginando uma linha ligando esses dois pontos, essa linha tem que estar perpendicular ao vento para a pipa subir por igual.<br><br>A gente amarra as duas cordas e só depois abrimos a pipa no vento. Entendeu? Ela vai subir com tanta força que tem que já estar amarrada, pois vai puxar uns 200 kg e não dá para segurar… Nessas e outras, tentava convencer meu primo que a pipa ia funcionar perfeitamente, só estava faltando alguém que me convencesse também!<br><br>Era um boi bravo. Tinha que amarrar primeiro para só depois abrir a porteira. Enfim, com o santo xará ajudando, amarramos a pipa em um coqueiro e em uma grade e desenrolamos a faixa. O vento pegou a pipa e arrastou ela para cima furiosamente. Eu tinha falado. Sabia que ia ser forte. O Claudio solta a pipa, mas tenta atravessar a corda quando a pipa ainda estava no chão. Está atravessando quando a corda sobe com força e pega embaixo do braço dele e o atrito da corda raspando embaixo do braço faz uma queimadura que chega a sangrar. Mas a pipa que chamam lá fora de “rainbow”, que significa arco-íris, sobe e fica uma ferradura nos céus. Na hora pensei que não devia chamar arco-íris, mas sim trovoada, pois o barulho que ela fazia lá encima parecia o som de dez motos de escapamento aberto “zoando” no céu.<br><br>Pego minha máquina e tiro uma dúzia de fotos. Dá para perceber um tempo fechado. O Claudio vai lavar o braço que para de sangrar. Chega o pessoal da agência e encontra a pipa naquela “zoada”. Cada corda nas extremidades da pipa está super esticada. Venta que venta… A gente explica para eles como soltar, como amarrar e depois colocar a pipa no vento. Recolhemos a pipa e eles levam as duas. Antes eu peço que me devolvam as pipas depois de terem usado na campanha para eu reaproveitar as varetas. Uma semana depois pagam as pipas depositando em conta.<br><br>Era o verão de 1998 acho… Em um mês as pipas foram devolvidas. Uma nem tinha sido tirada da sacola azul. A outra estava toda cheia de areia, parecendo usada poucas vezes. Depois o meu primo me contou, que na primeira tentativa de soltar na praia, amarraram de um lado e tentaram segurar do outro lado. Eles estavam em quatro e todos foram puxados para cima. Acho que desistiram rápido. Acho que faltou São Pedro.<br><br><br>E-mail: [email protected]