"Futing"

Para que houvesse a união de casais, ou seja, para que um homem e uma mulher se conhecessem, namorassem, noivassem e depois culminasse em um casamento, a humanidade com o correr dos tempos foi descobrindo meios para que isso pudesse acontecer. Assim, surgiu, não sei quando a ideia de reunir por diversas regiões os habitantes do local e a partir daí acontecer o desejado.

Naturalmente esse acontecimento teria por finalidade, em última análise, o nascimento de seres que iriam contribuir no futuro para o bem coletivo. Assim foram aparecendo as reuniões para a comemoração de aniversários, os bailes de fim de semana, e, mais tarde, com o aparecimento da eletrônica, as reuniões, agora, com fins comerciais tais como boates, night clubes, e etc. e outros cujo nome não me ocorrem.

Muito antes disso, tipos de acontecimentos muito simples e realizados em plena via pública foram os muito populares "footings", para nós futings que consistiam em as moças desfilarem pela calçada em um vai e vem contínuo e os marmanjos geralmente encostados nas paredes. Nisso havia troca de olhares, sinais imperceptíveis para os demais que culminavam, no momento em que o rapaz, deixando de lado a timidez, aproximava-se da moça e tentava iniciar uma conversação.

Nem sempre isso dava certo, mas ninguém ficava aborrecido, pois fazia parte do jogo. Ou a garota não havia gostado, por alguma razão, do moço, ou estava de olho em um outro mais atraente. Restava aguardar outra oportunidade, quem sabe, às vezes, em um outro fim de semana…

Eu também, como bom filho de Deus, frequentei com amigos nas noites de domingo o futing das ruas Sebastião Pereira e das Palmeiras em Santa Cecília. Lembro-me que voltava da casa de meu avô no Brás, devorava a comida deixada na geladeira por minha mãe, ao som do rádio ligado em uma emissora que transmitia música clássica. Em seguida me dirigia ao tão aguardado futing. Interessante é que nessas andanças nunca tive a oportunidade de me ligar a uma das garotas (e olhe que havia muitas e bem bonitas). Fui conhecer minha futura esposa muito longe dalí.

Creio que na época me sentia feliz em ficar observando as feições e as expressões dos jovens quanto às reações que mostravam (prenuncio da futura profissão?). Havia as pessoas alegres, as tristonhas, as que demonstravam alguma esperança, as ansiosas, as conformadas. Enfim, uma extensa vitrine de comportamento humano.

Não tenho ideia se em algum lugar desta cidade ainda se pratica o futing. Em outras cidades acredito que sim. Mas, como todas as coisas agradáveis da vida insistem em ocupar seu cantinho em nossa memória, ocorreu-me compartilhar com os bons amigos deste site essas lembranças que me agradam ainda e muito. Isso não significa que minha vida não tenha sido agraciada com muitos acontecimentos felizes.

Tanto eu como meus amigos da época andávamos sempre "duros", com frequência não tendo dinheiro para o cafezinho no boteco da esquina. Em compensação éramos de fato felizes. Pois tínhamos o futing, as trocas de piadas, o desabrochar da vontade de ser alguém na vida acontecesse o que acontecesse. Todos imaginávamos constituir família, ter filhos, netos…

Com o passar do tempo nossa memória é enriquecida com muitos outros acontecimentos, só que agora com realidades boas ou más e não mais apenas com sonhos, se bem que sonhar é fundamental (eu que o diga). No meu caso lembro-me com frequência de fatos acontecidos tanto na infância quanto na adolescência e dos mais recentes. Tenho certeza de que isso é bom.

O futing foi importante porque ajudou no sentido de que se iniciasse em mim a noção da amizade, da descoberta das coisa boas, da visão agradável do início do amor. Em resumo, desde há muito concluí que a natureza, segundo a implacável evolução nos presenteou com a infalível memória, nem sempre muito amiga, mas que nos estimula a sermos cada vez melhores nos alertando a não repetir aquilo que não deu certo, visando assim nosso melhoramento.

Imagino que os que me dignaram com sua leitura, alguns pelo menos iniciaram também seu aprendizado pelo futing. Imagino que se recordem dele tão agradavelmente quanto eu.

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