Tradições em São Paulo? Bobagem… Já era!

Em São Paulo, nossa cidade, alguns locais podem ser definidos como atrações turísticas, algo parecido ou equivalente, talvez locais diferenciados dentro da metrópole; lugares históricos simplesmente por estarem sempre lá, quase que desde a fundação. Cito o primeiro quarteirão da Rua Santo Antônio e a Praça da Bandeira, por exemplo.

Ah! Aquele quarteirão da Rua Santo Antônio, o bonde 5 – Bela Vista descendo a ladeira a 8, o medo de que ele desembeste e vá se espatifar em algum dos prédios da praça, o antigo Baixo Piques ou Piques, apenas; que eu saiba, isso nunca aconteceu, mas poderia ter acontecido, vai saber…

Quarteirão “zicado”, benzido com a mão canhota, a mão da bubônica; com um ramo murcho de arruda macho foi aspergido com “mijo” de velha; foi testemunha de correrias e estripulias da malandragem do Vaticano, do Geladeira, do Pombal e do Navio Ancorado e de algumas tragédias, incêndio do Joelma, os assassinatos e suicídio do professor da USP e da Cultura Inglesa, portal de entrada para o reino do Bexiga.

Nos tempos do cativeiro, malungos aguadeiros, de ganho, vinham encher seus corotes e barricas com as águas do Anhangabaú, do Itororó ou do Saracura Açu. Almocreves amarravam ali suas mulas e bestas quando de suas cheganças em São Paulo vindos de Sorocaba, tropeiros com carga de charque do sul do país; a cidade acabava ali, praticamente, nos piquetes de amarração junto ao encontro dos três rios; os piquetes ou piques, com o passar das décadas (muitas) deram nome ao terreno que foi sendo aplainado, civilizado, cercado por casas construídas na base do socavão, no pau a pique, na taipa, na cantaria, telhados, eiras, beiras, balcões e caramanchões, as portas fechadas todo o tempo, olhares femininos através de fendas nas venezianas.

Em 1862, Militão faz uma série de fotos do Largo do Piques, já totalmente cercado por construções; nenhuma carruagem, caleça ou tílburi. Anda-se a pé ou a cavalo. As ruas e ruelas e caminhos, como cachoeiras, vêm desaguar no Piques, início do vale do Anhangabaú, atração magnética. O veículo que descer, não volta, não conseguirá subir as ladeiras que são bastante íngremes, ainda hoje… Os anos nomearam o local como Largo do Piques – vox populi, vox dei, nome não oficial do logradouro público, tradição, batismo pela usança, pela oralidade.

O personagem Juó Bananere vende suas bananas literárias no Baixo Piques, sempre comentando a “Divina Encrenca” que rolava na cidade e no “paese”. Charles Miller, de vez em quando, é visto descendo do bonde no Piques, caladão, esnobe (sine nobilitatis); às vezes cumprimenta o motorneiro tocando a aba do chapéu, coisa rara. Tumulto. José Carlos Bauer, o Apolo germano-mulato de olhos verdes, são-paulino, está no bonde; desce no ponto da Conselheiro Ramalho com a Fortaleza, suspiros profundos das passageiras, olhares melosos…

Hora do almoço, Djalma Santos, aprendiz de sapateiro da fábrica de calçados, ainda menor de idade, vê o bonde passar enquanto come um sanduíche de mortadela, sentado na calçada… 1948. Paulo Ferreira de Camargo, professor de Química da USP e monitor da Cultura Inglesa, atingiu o paroxismo do stress, da psicopatia… Matou a mãe, duas irmãs e atirou os corpos em uma cisterna que mandara cavar no quintal de sua casa na Rua Santo Antonio 104, na boca do Piques, oficiosamente praça da Bandeira. Descobertos os assassinatos, matou-se explodindo seu coração com um tiro, malgrado imprensa, policiais uniformizados da Força Pública e policiais civis, cerca de 40 pessoas estiveram presentes.

Entre 1954 e 1960 todo quarteirão foi demolido e assim ficou, baldio, transformado em estacionamento ao lado da Nove de Julho. De pouco a pouco os terrenos vagos começaram a passar por um processo de “favelização”. Retomada a posse da área, constrói-se o Edifício Joelma, mais tarde palco de uma das maiores tragédias já ocorridas no país, um incêndio que levou à morte centenas de pessoas, entre elas a jovem Vera Lúcia Prates de Abreu… Durante alguns anos o Joelma passou por reformas e, posteriormente, voltou a ser ocupado. Hotéis desativados na Praça da Bandeira foram ocupados por pessoas do Movimento dos Sem-Teto, “favelizados”, saqueados…

“Sete Garrafas”, famoso engraxate do centro da cidade, foi assassinado na garagem do Joelma. O “Sete” engraxava na Ponta da Praia, esquina da São João com Formosa, ao lado da pastelaria do China, depois mudou-se para a Xavier de Toledo. Fazia ponto na porta do bar Turf, um “bote” ao lado do Mappin… Sua caixa de engraxate era um verdadeiro bar, tinha até whisky de 12 anos, é o que dizem! Engraxar sapatos com o Sete Garrafas e usufruir todos os “benefícios” ficava muito caro! O “Sete” chegou a se apresentar no Simonetti Show da TV Excelsior durante algum tempo, fazendo batucada com as flanelas de lustrar sapatos… “Morreu de morte matada”, coitado, mas ninguém se importou com isso; negro, pobre, etc. etc…

Aquela área da cidade me parece ser um local predestinado às tragédias, aos acontecimentos misteriosos, aos tipos humanos os mais variados e bizarros…

Lembranças: O manobrista, vigia e lavador de carros do estacionamento da Sto. Antonio era um "liga" cheio das nove “o'clock”; narcisista ao extremo e muito forte, hoje seria classificado como metrossexual (o fio da navalha quase atingindo o desbunde total); no Carnaval, fantasiava-se de herói de histórias em quadrinhos: O Morcego Negro, Capitão Marvel, Super Homem, Mister Radar, O Fantasma Voador (não estranhem os nomes, pois estamos falando dos tempos de O Globo Juvenil, O Guri, Gibi, Vida Juvenil, O Herói, Xuxá, O Pequeno Xerife, Terror Negro…). Bem, certa ocasião o dito cujo foi visto usando uma fantasia estranhíssima: calção e uma espécie de peitoral feito de lona de caminhão, um simulacro de gládio amarrado à cintura com um cinto de plástico marrom, uma peruca de cabelos compridos, sandálias “franciscano”…

– Fulano, que diabo de fantasia é essa?
– Essa eu copiei de um "firme" que eu vi no Rex, “co” Vito Maturi… “tô” fantasiado de Sansão e Dalila…

Mais bizarro impossível! Uma daquelas lendas ou uma daquelas verdades diz que Victor Brecheret apresentou, em fins dos anos 20, projeto para um monumento às Bandeiras a ser erigido no Piques, mas (tem sempre um mas!), veio a Revolução de 30, o Movimento Constitucionalista de 1932, a Constituinte de 34 e por aí a fora, de modos e maneiras que o projeto foi engavetado e assim permaneceu até a criação da Comissão para os Festejos do IV Centenário da Cidade, quando foi reapresentado com modificações – bem mais grandioso e aceito – iniciado e terminado, mas (olha o “mas” de novo!) o conjunto escultórico veio para o Ibirapuera ao invés do Piques, que aliás era Praça da Bandeira oficialmente desde 1950 (o vereador que apresentou o novo nome à edilidade deve ter achado que Bandeiras fazia referência ao auriverde pendão da minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança…); fazer o quê, não é? Claro que o Edil não tinha a menor ideia da propositura inicial ou soubesse discernir a diferença entre bandeira e Bandeiras.

Porque escrevo? Escrevo para protestar contra o desrespeito às tradições, à história de nossa cidade, ao estabelecido através de usos e costumes dos paulistanos. Escrevo para transmitir um pouco de minha "reiva", de minha vivência. Escrevo porque gosto…

– Ué, essa rua mudou de nome? Não é mais Rua Direita?
– Mudou, claro! Agora chama-se Boulevard Tereza S. N. Pereira!
– O que? Quem é essa pessoa? Nunca ouvi falar! Morreu quando? O que ela fez?
– Não é o que ela fez! É o que ela faz! E ela não morreu, está vivíssima e tanto está que foi eleita Miss “Piriguete” do ano. É uma apas, Assessora para assuntos Sexuais, lotada nos escritórios do vereador Fulano de Tal na Serra da Cantareira; seu nome em uma rua do Centro é uma homenagem ao seu esforço e dedicação, tantos são os favores que ela vem prestando à edilidade…
– Ahn! Entendi!… Pelo menos acho que entendi!

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