Redações escolares

Nos anos 50, frequentava o ginasial do "Alexandre de Gusmão", no Ipiranga. Era escola pública, que se referenciava entre as melhores da cidade. No grupo de professores, destacam-se: Cretella, Angelina, Ferrari, e principalmente a mais temida pelos alunos: Dona Berta Camargo, professora de Português. Dona Berta, além de "judiar" dos alunos com análises dos sonetos de Camões e seu "Lusíadas", tinha como característica acompanhar a conduta de seus alunos fora de aula, tanto no intervalo, na rua, no bonde… e não se furtava de comentar ou criticar quando julgasse conveniente. Ela não apenas se preocupava em ensinar o Português, mas também bons modos e cidadania (não apenas direitos, mas principalmente obrigações).

O preceder de sua aula era agonizante… a classe normalmente barulhenta e bagunçada, transformava-se em um silêncio total, tentando ouvir o "toc-toc" de suas botinhas caminhando pelo corredor… e todos de pé a aguardavam, normalmente vestindo um "tailleur" clássico (desculpem a grafia… ela não ensinava francês), entrava, mandava que os alunos sentassem e de acordo com sua fisionomia imaginávamos o que nos aguardava. Uma de suas maneiras de entender o íntimo dos seus alunos era através de redações, dando temas pouco esperados. Recebia-os dos alunos e na aula seguinte já os tinha corrigido.

Lembro-me de uma redação, onde ao recebê-la devidamente corrigida dos erros de grafia ou concordância, havia um traço vermelho, unindo duas palavras e uma seta em direção ao pé da página com a palavra "cacófato". Sem querer, havia produzido um palavrão. Imaginei que as coisas ficassem por aí, mas em uma outra aula ela começou a escrever no quadro um poema de Camões:

“Alma minha, gentil de te partiste…”

E ao terminá-lo, com um sorriso sarcástico:

– Alma minha… Contém um cacófato, porém, para Camões é uma licença poética, o que não é o caso de um aluno desta classe… Murchei, na minha solidão…

Outra vez, a redação foi: Coisas importantes do Ipiranga… De forma unânime o Museu do Ipiranga foi escolhido pelos alunos. E ao devolvê-las aos alunos, disse:

– Às vezes se espera o óbvio, e ele vem, mas as surpresas acontecem…

E pediu ao Ubirajara Cirillo para ler, em voz alta, sua redação. O Ubirajara era uma das vítimas preferidas nas análises dos Lusíadas, porém sua redação destoava das demais, pois não o museu, mas sim a quantidade de escolas do bairro era o que considerava mais significativo…

Em um outro pedido de redação, o tema dado foi "Eu e as revistas em quadrinhos". Mais uma vez, de forma unânime, os alunos criticavam a leitura dos tais "Gibis", descrevendo quanto perniciosos seriam para a juventude…

Ao devolver as redações aos seus autores, disparou:

– Não posso chamá-los de mentirosos, cada um de vocês devem se julgar.

E pediu ao Flávio Glezer para ler, em voz alta, a sua interpretação. O Flávio dizia no seu trabalho que sim, lia as tais revistas e que procurava ali encontrar uma distração para além das tarefas da escola, e que não via nada de mal, se tivesse consciência da coisa em si…

À Dona Berta, meu humilde respeito.

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