"Ad eternum" (bonde aberto)

I – Creio lembrar bem. São Paulo dos anos 60. Década em que ingressei, então um adolescente paulistano. Eu que sempre gostei dos bondes e ônibus. E da CMTC, que me encantava. Nunca trabalhei nos transportes. Não fui motorista, cobrador ou mecânico – nem entendo coisa alguma. Tampouco fui motorneiro. Igualmente não tive formação profissional da área. Apenas emoção. O suficiente para gostar.

II – Àqueles anos 60, tão distantes dos meus, por enquanto 65, como é sabido, São Paulo já era de caos no sistema viário urbano. Ainda muitos vazios demográficos, porém em contrapartida um adensamento populacional intenso e a chamada "verticalização" que escapava da região central para os bairros, além da consolidação da indústria automotiva nacional, com isso tudo carros e mais carros nas ruas e avenidas – de sinalização de trânsito aquém do necessário, mesmo porque muitas vias eram ainda de paralelepípedos. Contemporâneos lembram. Imagens de jornais da época bem ilustravam. A Gazeta, Diário de São Paulo (Associados), Diário Popular, Última-Hora, as Folhas, Estadão, O Dia, Correio Paulistano. Trânsito congestionado, filas de bondes e ônibus. Tráfego caótico. Não só na região central como também nos bairros contíguos. Rua da Consolação, Xavier de Toledo, na Augusta. Na Sete de Abril, na Barão, Av. da Liberdade, João Mendes, Av. Ipiranga… A CET nem houvera sido criada. Trânsito era afeto ao DST, órgão da pasta da Segurança Pública. Os "marronzinhos" de então? Guardas-civis, os originários.

III – Em tal cenário, como se situavam os bondes? Era voz corrente e realidade dos fatos. Não obstante até gozarem da simpatia de muitos (muitos?), outros tantos reclamavam pela extinção. Pelo fim dos bondes vermelhões. Os quais, ainda que charmosos de tradição, infelizmente atrapalhavam. E atravancavam. Anacrônicos (frota envelhecida) e obsoletos, eram morosos. Vilões do trânsito, mesmo sem pretender. Os bondes paulistanos eram o próprio passado que insistia no presente. Aliás, por todo o Brasil, os bondes não escaparam à sanha da destruição. Exceção aos de Campos do Jordão e de Santa Teresa.

IV – De há muito o sistema operacional de bondes em São Paulo houvera estagnado. Deixavam de chegar à maior parte dos bairros. A distribuição de linhas, pelas quatro zonas da cidade, era desigual. A própria CMTC, com os ônibus, era assim. Bairros a que ela jamais chegou. Aos bondes só lhes era garantida "via exclusiva" para Santo Amaro e em poucos trechos outros. Os bondes trafegavam em contrafluxo, mesmo em vias movimentadas. A própria mãe deles, dona Light, se desinteressava até antes de os repassar à CMTC em 1947. E o máximo que a CMTC fez com os bondes foi um mínimo. Reformou-os ao longo dos anos e, de aquisição mesmo, só os Gilda, também em 1947. Os belos carros Gilda, modernos, em relação aos daqui, trazidos da Broadway, porém lá já eram superados, eles que de segunda mão já vieram. À época, "tecnologia de ponta" (embora assim não se falasse), em termos de bondes, eram os também americanos "Saint Louis PCC cars". Os mais bonitos e modernos bondes – bondes ao pé da letra – jamais construídos. Nesse particular, São Paulo (teria feito jus) não imitou Toronto, Washington, Boston, Filadélfia, Detroit, Los Angeles, São Francisco ou Chicago. Meados dos anos 50, as importações estavam restritas.

V – A gente lia nos próprios bondes, de quando um deles aparecia "novinho", reluzindo no vermelho e cheirando a tinta ou verniz nos bancos. "Reformado nas oficinas da CMTC". Da Santa Rita, da Araguaia. Eu, moleque, anos 50, meu pai me dizia que, quando ainda da Light, a reforma dos bondes era nas gigantescas oficinas do Cambuci. De fato, alguns bondes tinham "cara" nova: o "15 de Novembro", o "9 de Julho" – eram como que "camarões", um pouco diferentes. Nem tais bondes "novos" que, metidões e vaidosos debutando nas ruas, nem eles se davam conta – naqueles anos 60 – de que era só o começo. Do fim. Nos trilhos urbanos, São Paulo rolava na contramão do progresso. Só mesmo os bondes não viam…

VI – Bondes camarões. Marca inesquecível da paisagem paulistana por décadas. Acompanharam a era fabril daquela Pauliceia de chaminés e respectivos operários. Surgiram lá por 1927, novidade de então, que só existiam carros abertos. Modelo canadense, alma paulistaníssima. Robustos e espaçosos. Eram a cara de um "vagão" ferroviário dos anos 30.

VII – Camarões, inesgotáveis no tempo. Os mesmos bondes camarões que vemos rodando nas ilustrações dos jornais na São Paulo da Revolução de 32 – e nos documentários de então, em meio à população em passeatas – os camarões, ei-los ainda 30 anos depois, imutáveis, sobre os mesmos desgastados trilhos… Infatigáveis. Determinados. Só lhes tinham mudado, ao longo dos anos, a roupa vermelha: de Light para CMTC. E lógico, motorneiros, cobradores e passageiros. Continuavam as mesmas as placas brancas dependuradas dos fios, "Parada de Bonde". Nos bondes, era uma São Paulo que não mudava. Nos três primeiros anos 60, linhas de bonde vão sendo "progressivamente" (sic) suprimidas. No lugar delas, ônibus, não da CMTC, na maioria das vezes.

VIII – Bondes abertos. Não contando os reboques que, claro, não tinham motores, os bondes abertos menores – iguais àquele do Museu – eram de nove fileiras de bancos de madeira, transversais e paralelos entre si. Cinco pessoas (aperta, cabe mais um) em cada banco. Bondes sem janelas, frio e chuva eram combatidos pelas cortinas de lona, sobe-e-desce manualmente que, obstruía enxergar a rua… Frente aberta, expunha o motorneiro às delícias da intempérie. "Duas frentes", pois eram para circular em vias simples, de dois sentidos, caso da Vila Prudente, trecho final. Idem a Vila Clementino (Rua Tangarás) ou a Bosque da Saúde.

IX – Truque de quatro rodas. Assim também era o bonde aberto de 11 bancos. Mas de frente com vidros, digamos um grande para-brisas de três pedaços. A linha Belém foi até o fim com eles. Aliás, um deles foi vendido a um museu americano, "exportado" como à época noticiou um jornal. Cá em São Paulo não restou um sequer. Os que foram doados, como aquele do Ibirapuera, restaram apodrecidos.

X – Ao longo dos anos 50 – ocorreu antes no Rio de Janeiro – os bondes abertos foram fechados somente do lado esquerdo. Embarque e descida, doravante, pelo estribo e balaústres da direita. Era menos gente viajando sem pagar. Vi algo assim na Internet, salvo engano. Que os bondes abertos eram também chamados de "summer bench car". Faz sentido. Veículo arejado próprio para dias de verão (países tropicais). Apropriado para aquela estação. Na São Paulo fabril, os bondes abertos, de nove, 11 e 13 bancos eram – não de uma só – mas das três estações, como sabido: Brás, Glete e Vila Mariana. No frio e no calor. Na garoa e na chuva. Na cerração paulistana.

XI – Em 1955, eu contabilizava oito anos (no balanço de dezembro). Vez por outra, eu via sair da Estação, na Domingos de Morais, algum bonde "novo". Meus olhos brilhavam de êxtase! Algo diferente dos heroicos camarões. A frente não era igual, nem propriamente as janelas. E traziam uma "franja" amarela, naquela frente vermelhona, sob o para-brisas. Uma pequena bandeirinha de cada lado, paulista e brasileira, na frente e no alto. Era o dia 7 de setembro. A CMTC os estava colocando em serviço. "Fabricados" pela CMTC, na verdade aqueles eram os antigos carros abertos maiores, os de 13 bancos. Que agora se tornavam fechados, imitando os camarões. Perto do fim, alguns anos depois, por "ironia do destino dos bondes", estes novos carros – alguns deles – se tornariam também "reboques", sem motor. E de seus próprios iguais. Vi deles nas linhas Penha e Lapa, por sinal sempre cheias. Cheias como a Santo Amaro.

XII – Meu pai, trabalhador da Light lá do Lavapés, se bem recordo, ele me dizia. Que tais bondes reformados, dos carros abertos maiores, tinham um "apelido". Ou de parte do povo ou dos próprios operários que os reformaram. Claro, uma homenagem. Carinhosa, mesmo que parecesse estranha. Eram os "Marta Rocha". Uma alusão – eles, que eram bonitos – à eterna mais bela Miss Brasil, de 1955. Se ela soube, respeitosamente, que entendesse. Pois se Rita Hayworth tinha virado um bonde Gilda… Não me lembro de ouvir nas ruas tal reverência. E a miss, se a ouviu, terá gostado? "Muito", quem sabe…

XIII – Como é de conhecimento, o bonde tradicional – talvez o veículo mais charmoso e nostálgico – aquele de motorneiro no controle eletromecânico e manual, bonde de alavanca de contato com roldana ou pantográfica, aberto ou fechado – nos anos 70 ele cedeu espaço ao "veículo leve sobre trilhos", o LRV – que singra os trilhos de cidades americanas e europeias desde então, muito mais para um metrozinho de superfície que bonde mesmo. São Francisco e Milão são excelências, nas duas modalidades. Bonde tradicional, que o americano chama de "heritage". No caso daquelas cidades, herança muito bem cuidada. Herança paulistana (na saudade) são dois nomes que sempre remeterão aos bondes: Light e CMTC. Lembrarão os bondes "ad eternum".

XIV – Epílogo. Isto posto, então venho requerer ao site. Por obséquio, registrar este pequeno tributo aos nossos bondes. Abertos, fechados, reformados – eternos na paisagem da memória. Cujo espírito rola nos trilhos da nostalgia. Transpondo a cerração, bondes respingando garoa. Rumo ao abrigo honroso – que é o site – como se ele fosse uma das três estações que abrigavam os elétricos, cada fim de jornada. Porque o SPMC é a memória do coração. O coração da memória. De todas as São Paulo que os bondes conheceram. Termos em que respeitosamente peço deferimento…

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