Ah! Que saudades dos velhos Carnavais

Quem não gosta de samba bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou doente do pé. Eu sempre gostei do samba, mas já estou naquela fase em que fiquei doente do pé e, infelizmente, já não dá mais. Mas aqueles Carnavais de antigamente realmente eram diferentes dos atuais, mais pobres e sem o luxo de hoje. Mas aqueles quatro dias eram fantásticos, pois começava no sábado e ia até a Terça-feira Gorda, e a música carnavalesca mais triste que se ouvia, isso já pelas quatro horas da madrugada da terça feira, era aquela que dizia: “Ai… ai… ai! Tá chegando a hora, o dia já vem chegando e eu tenho que ir embora”. Aí dormia até as 11h da quarta-feira para ir para o batente que começava ao meio-dia para quase todos. E o respeito com a Quaresma era total e só iríamos pensar em dançar Carnaval no Sábado de Aleluia que era ansiosamente aguardado.

Hoje, o Carnaval é festejado o ano inteiro e no Nordeste vai adentro da Quaresma com aqueles trios elétricos, com aquela imensidão de gente caminhando atrás. Bem diferentes daqueles nossos velhos tempos. Como dizia aquela marchinha bem antiga "O Carnaval só deixou saudades oi… saudades da alegria que ficou”. Para a Colombina que pensava distraída e do Pierrot que chorava lá no fundo do salão. O povo daquela época, que éramos nós, usava qualquer coisa como fantasia: uma máscara, um chapéu, um vestido de mulher, um sapato de salto alto extravagante e usávamos toda nossa energia para extravasar ao máximo nossa imaginação prazenteira.

Que bons tempos aqueles já tão distantes. Aqueles grupos de famílias sentados à beira das avenidas acompanhando os corsos no vai e vêm tão alegres, com as serpentinas e os confetes coloridos atirados por todos os cantos. Os lança-perfumes quando usados apropriadamente. Os bailes de salão são os que mais sinto saudades, pois tínhamos nosso grupo de amigos e todos os anos iam aos mesmos bailes:

Minas Gerais, que fazia no Cine São José do Belém, Corinthians no Brás Politeama e depois no Ginásio do Parque São Jorge, o Cine Glória, o Universo, o Ideal e tantos outros.

Aí foi surgindo os blocos carnavalescos pelos bairros da nossa cidade, lembro bem da Vila Esperança com o Bloco do Nenê de Vila Matilde e tudo foi mudando radicalmente até começaram a se organizar as escolas de samba e a Avenida Tiradentes passou a ser a passarela do samba. Hoje tudo acabou. E o Carnaval passou a ser um empreendimento dirigido por empresários que logo depois da Quarta-feira de Cinzas já começam com o novo enredo, que o diretor de planejamento já tinha programado.

Infelizmente ele virou uma indústria do divertimento e milhares de pessoas com seus altos salários têm trabalho fixo durante o ano todo, e ele é subsidiado por órgãos oficiais e pelos foliões que participam dos desfiles e que cada um compra suas fantasias por preços que variam de acordo com a ala que irão desfilar. E ao povo que antigamente andava pelas ruas e avenidas ou pelos salões de baile, não lhes resta outra opção do que ir para as praias enfrentando os enormes congestionamentos pelas estradas de São Paulo e assistindo pela televisão as que desfilam sem fantasias, ou algumas quase sem fantasias. E isso não quer dizer que estou fazendo qualquer restrição a esse novo costume. Que saudades sinto dos velhos tempos.

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