Lembranças de São Paulo

Na época em que voltei a São Paulo para trabalhar, morei na pensão do Sr. Armando, na Rua Conde do Pinhal, atrás do Fórum novo. Ali conheci várias pessoas, por exemplo, Walter Campello Brunáscio, primo da Cely Campello, o Vicente, um moço mineiro que era "procurador" do banco Bradesco, pois passava o dia inteiro procurando fichas nos arquivos do referido banco.

Enfim, pessoas jovens que como eu procuravam melhorar de vida e lutando bravamente para tal. O ambiente era agradável e divertido, pois muitas piadas se contavam e muitos "causos" também. Lembro-me de que uma noite, estando no portão de entrada da pensão, parou um senhor maltrapilho, bastante "alto" com as bebidas que havia tomado e, em um impecável português, solicitou se não poderia arranjar-lhe um prato de comida, pois sentia fome. Imediatamente procurei o Sr. Armando e solicitei se seria possível conseguir algo para o andarilho, no que fui prontamente atendido. Voltei e lhe entreguei o prato de comida para a sua alegria.

Continuamos conversando e durante várias vezes esse senhor voltou à pensão e ficamos praticamente amigos. Oferecíamos comida e roupas, bem como alguns banhos para que ele se sentisse melhor. Consegui então que ele me informasse seu nome: Rangel. Os dias foram passando e o Sr. Rangel sempre aparecia na pensão, e comecei a indagar a respeito de sua vida. Era difícil arrancar-lhe alguma informação, tendo percebido que ele não gostava de falar de si.

Mas em uma determinada noite, ao conversarmos, ele deixou escapar que se sentia "Erga Homini Erga Dei", o que até me assustou, pois ele havia acabado de usar uma expressão latina: "Contra Deus e contra os homens". Nesse momento, para nós dois bastante emocionante, solicitei dele que se abrisse comigo e contasse um pouco de sua vida. Nesse instante, antes de falar qualquer coisa, ele retirou do bolso interno de seu paletó um pequeno embrulho de jornal onde havia uma carteira pequena, vermelha, onde se lia em sua capa: "OAB". Daí em diante passei a pesquisar sua vida e confesso que muito me surpreendeu. Ele era advogado!

O Dr. Rangel havia estudado na "Academia das Arcadas", no largo São Francisco, tendo sido contemporâneo de Jânio Quadros. Contou-me ele que o Jânio era uma figura incrível, pois na época ele fazia campanha para a presidência do Centro Acadêmico XI de agosto de forma deveras hilariante: – Aqui estou em minha campanha com a certeza de ser eleito, pois não poderá ser diferente! Em futuro próximo serei candidato à Prefeitura de São Paulo e, após, pleitearei o Governo do Estado e quiçá a Presidência da República!

A reação dos colegas presentes era de muitas risadas e chacotas! Na época do casamento do Jânio, o Dr. Rangel lhe emprestou um terno para que ele se apresentasse bem ao evento, pois seu pai, Sr. Gabriel Quadros, não via com bons olhos o fato tendo-lhe negado dinheiro para realizar as bodas!

Continuando a história, fiquei sabendo que o Dr. Rangel tinha dois irmãos juízes de direito na cidade de Santos – SP, e por motivos óbvios evitavam se encontrar com o irmão alcoólatra. Por ironia do destino, na época comecei namorar uma garota que fiquei sabendo que era sobrinha de uma senhora que tinha sido nomeada administradora dos bens do Dr. Rangel. Ele possuía por herança duas ou três casas de alto valor e dada a sua doença, seus irmãos nomearam a referida senhora como administradora de seus bens.

O interessante era se constatar o grande conhecimento jurídico do Dr. Rangel (não lembro seu primeiro nome), pois nos momentos em que se encontrava sóbrio, bem vestido, era sempre convidado a trabalhar com seus colegas advogados. Encontrei-me com ele em um café da Praça da Sé e fiquei deveras contente em vê-lo muito bem vestido, com uma caneta Parker 51 em seu bolso externo, quando contou que estava trabalhando com um colega em seu escritório.

Dei-lhe os parabéns e implorei a ele que continuasse assim e deixasse a bebida de vez. Minha alegria durou menos de um mês, pois ele apareceu alcoolizado e maltrapilho novamente na pensão. Nos momentos de desespero, ele trocava paletó por cachaça, camisa por cachaça, sapatos por cachaça e só lhe sobravam as calças! Quanta tristeza, tudo, dizia ele por causa de um amor mal correspondido! Me contou ele que de vez em quando ia pedir esmola na casa de sua ex-noiva e às vezes conseguia vê-la!

Bem, por algum tempo o Dr. Rangel sumiu e um dia ao pegar o ônibus para dirigir-me ao trabalho comecei a ler o jornal e vi a triste notícia:

“Encontrado morto em um terreno baldio no bairro da Liberdade o Sr Rangel”.

No necrológio, na página interna, constava que o enterro tinha sido providenciado pela Ordem dos Advogados do Brasil. O Dr. Rangel havia morrido de frio, quase nu em uma madrugada de rigoroso inverno. Não pude conter as lágrimas, perdi um querido amigo.

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