Nas reuniões familiares descritas por quase todos os escritores e colaboradores do SPMC, que ocorria sempre aos domingos, com aquele almoço que era a "macarronada da mama" sempre tinha uma história contada por um dos presentes. Uma boa parte dos parentes naquela época, se não fossem italianos ou descendentes, eram brasileiros que comiam arroz e feijão a semana toda e no domingo tinha que variar o cardápio, entrando também na macarronada. No almoço de domingo na casa da vozinha Guilhermina, no Bairro da Água Rasa, era o vovô Odilon quem contava suas histórias. Como eu era novo na família tinha que ficar ouvindo as suas proezas, mas com reprovação da “vozinha”, que era para ele me deixar em paz, essa história ele já havia contado por diversas vezes.
Quando solteiro ele trabalhava como condutor de uma balsa no Rio Paraná, fazendo a travessia de caminhões de uma margem à outra, ocorrendo vários acidentes, até caminhão caiu na água. Depois de casado começou a trabalhar na Cia. Estrada de Ferro Sorocabana como mecânico de vagões, até se aposentar. Para pessoas como eu, que andei muito de trem, notei que quando o trem parava nas estações havia um funcionário da companhia que ia com um martelo batendo nas rodas dos vagões. Conta o vovô que a pessoa que fazia esse serviço depois de 35 anos de trabalho ia se aposentar.
Colocaram um novo funcionário que passou a acompanhá-lo no seu último dia de trabalho para aprender a sua função. A cada estação desciam do trem e martelavam lá a roda do trem até o final da linha. Na despedida desejou sucesso ao rapaz, perguntando se tinha alguma dúvida. Dúvida ele não tinha, mas tinha lá uma curiosidade, querendo saber o porquê que batiam com o martelo nas rodas do trem: “Escuta aqui, estou me aposentando com 35 anos de trabalho e até hoje eu não sei o porquê disso, e você logo no primeiro dia já quer saber. Vai lamber sabão”. Risos. No almoço na casa da avó Alda lá na Henrique Sertório, no Tatuapé, era o Roque Furtado, cunhado do meu irmão, quem contava as histórias. Tem um vozeirão muito engraçado e todos os seus casos vêm com o dia, mês e ano do ocorrido. Na Sexta-feira Santa, na Igreja Cristo Rei, no Tatuapé, ocorria a procissão do Nosso Senhor Morto, onde toda a comunidade acompanha com uma vela acessa, sendo conhecida como "A procissão das Velas".
Na época, para proteger a vela do vento, era feito um funil de cartolina colocando a mesma no meio. Diz ele (não recordo o nome da “felizarda”), estava segurando uma criança de colo em uma mão e na outra a tarde vela. O vento estava muito forte encostando o protetor no pavio da vela que começou a pegar fogo. Acredito que dá para vocês entenderem a estripulia que ocorreu, ela com o nenê em uma mão e a vela pegando fogo na outra. Só ouvindo da sua boca para morrerem de rir. Na casa da tia Aninha em Santo Amaro, na Vila Préu, não era macarronada e sim nhoque (o prato predileto das netas) contando ela mesmo a história sobre seu avô Antonio Eloi.
Foi estudar em um colégio interno no Rio de Janeiro, onde conheceu uma moça (Helena) fugindo do internato para casar, isso com 17 anos de idade. Nesse casamento teve nove filhos. Com o falecimento da Helena, seu avô casou pela segunda vez com a Teodora, tendo também nove filhos (ela não sabe o número certo de filhos, estando entre seis a nove desse segundo casamento). Arrematou dizendo que ele morreu ainda jovem com 55 anos de idade. Acredito que eles deveriam morar ao lado de uma linha férrea. Falando em almoço, hoje tem macarronada ao molho de almôndegas, alho, cebola, molho de tomate e champignon com azeitona. Não foi feita pela mama – comprei-a já pronta na “Rotisserie Dona Elisa” (essa receita acredito que seja do Clesio). Coisas da vida moderna. Estão servidos!
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